Eu só finjo

Ontem, completaram-se exatos oito meses que minha mãe deu seu último suspiro nesta terra.

Hoje, eu só finjo que essa data nunca existiu. Portanto, a marca no calendário não faz sentido. Portanto, não preciso ficar triste nem atônita. Para tanto, eu só finjo.

Não é difícil fingir. Basta colocar todos os afazeres em um lista mental e ir dando “ok” imaginário à medida em que são finalizados. Quando as tarefas acabam, é só listar outras com as tags “urgente”, “importante” e “circunstancial”.

Se estou escrevendo, é porque já me encontro na última tag e preciso continuar fingindo. Mas o tema sobre o qual escrevo é justamente sobre o fingimento. Vocês devem imaginar que, agora, fica difícil fingir.

Difícil ignorar a saudade de ouvir a voz dela pedindo para que eu lesse o que estou escrevendo. Se gostasse do que ouviu, a resposta seria: “Coloca em letra grande e põe no pen-drive pra eu imprimir”. Caso torcesse o nariz pros meus devaneios, certamente diria: “Curuiz, onde você arruma essas ideias?!”.

Difícil passar pelo quarto dela e não vê-la deitada na cama, escutando seu balbuciar de orações com algum terço nas mãos. “Oi, que horas vai me ajudar?” ou “Quer que eu faça um omelete para você?”

Difícil não ter para quem lamentar um dia árduo, chorar as pitangas tão bem guardadas ao longo de todas as horas longe de casa. “Fica tranquila”, não seria outra frase que sairia de sua boca a não ser essa ao ouvir meus dramas.

Se antes havia uma série de compromissos a serem feitos em minha mente, agora é uma lista dos “difíceis” que se forma na minha cabeça. E ela inteira é marcada com uma única tag: “dor.” Bobagem escrevê-la, porque, a maior dela, sem dúvidas, é: difícil não poder comentar, lamentar e chorar com ela a falta que ela me faz.

É por isso que hoje eu só finjo.

Pior que esquecer é não ter memória

A vida muda tanto. E tão rápido que não dá para se recordar. Qual é, afinal, o critério do cérebro para determinar o que é importante ou não de ser retido? Acontecimentos de ontem, tínhamos certeza, marcaria-nos de tal forma que dele recordaríamos todos os dias. Mas, vejam só, passam-se duas semanas, e nem resquício dessa ou daquela experiência ficam na memória. A não ser quando diz uma pessoa: “Se lembra de…?”. Isso quando alguém se recorda. Sendo assim, não há nada para fazer, apenas chorar.

Faço das minhas lágrimas um terço de contas diáfanas, que tiro em doses homeopáticas.

Pior que esquecer é não ter memória. É pensar: “por que não fiz mais isso ou aquilo para poder me recordar agora?” É pensar: “tudo o que tenho agora são as minhas lembranças, boas ou não, mas sempre poucas”. Diga, você, se resta mesmo outra maneira a não ser chorar.

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“Tenho namorado”. Quando você precisa recorrer a um homem para se livrar de outro

Sábado, início de noite. Saio de uma “baladinha top” do Chalezinho, onde estive boa parte da tarde na companhia de uma amiga que há muito não via. Estou cansada. Havia trabalhado mais cedo ali por perto fazendo cobertura de um debate. Deixo o local, sob protestos da amiga, porque realmente quero ir para a casa descansar.

Chamo o carro e espero-o chegar tremendo de frio. No meu rosto, imagino eu, está visivelmente clara a expressão de que quero dar o fora dali. Neste momento, aproximar-se um homem. Deve ter seus 35 anos, veste uma bata branca e tem um ralo cabelo preso em um rabo de cavalo.

“Oi, moça, licença, você estava ali?”, diz, se referindo a tal baladinha top. Respondo que sim. “E estava bom?”, questiona novamente. “Não é muito o lugar que costumo frequentar, mas as pessoas estavam se divertindo”, replico.

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Porque as pessoas odeiam (ou amam) o domingo

As pessoas não odeiam o domingo porque é o dia que precede a segunda-feira. Nem mesmo porque escutam Faustão falar: “logo após os reclames do plim plim”.  As pessoas não gostam do domingo porque é o dia em que ficam mais próximas de si mesmas. E, se isso não for (ou não estiver) bom, a reação é execrar o dia em que Deus descansou.

Mas, por que escolhi este dia para cravar que é o que as pessoas ficam cara a cara consigo?

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A mesma pessoa, mas diferente – um relato anônimo sobre depressão

Escrito por alguém que preferiu não se identificar

Enquanto lê o texto, clique aqui. para ouvir a canção “Começo, Meio e Fim”, do grupo Roupa Nova. 

Quando algo não vai bem com o nosso corpo, precisamos dedicar tempo para investir na busca pela causa e pelo tratamento daquilo que nos faz enfermar. Do contrário, sofreremos consequências que poderão significar uma derrocada.

Antes do colapso, vêm os sinais. Podem ser dores de cabeça constantes, um cansaço que não sentíamos antes, muito sono (ou a falta dele), enfim. De diversas formas, somos alertados de que uma intervenção é necessária para reajustar as coisas e restabelecer a ordem de tudo.

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Invisível

Sol rachando no meu rosto, e Racionais estourando nos meus ouvidos. Aumento o volume para tentar ouvir menos o barulho da hipocrisia: um som que mistura gritos histéricos de patricinhas nos seus Iphones com a conversa de dois homens – terno de linho, perfume importado, relógio de ouro – sobre a situação econômica do país.

“Precisei vender duas, das minhas cinco fazendas no interior de São Paulo. E tive que cortar alguns gastos pessoais. Jatinho?! Agora, só nos fins de semana”.

Ainda bem que, nesses últimos anos, aprendi bem o que é auto-controle. Meus cinco anos praticando meditação serviram-me para muita coisa, porque minhas vontades neste momento eram:

– encurralar um daqueles velhos com o caco de vidro e mandar que me passassem a porra da chave do conversível estacionado logo à frente;

– ou surtar aqui mesmo, gritar, mandar tomar no cu, socar a parede de concreto até meus ossos encontrarem com o cimento.

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A humanidade é desumana, mas ainda temos chance?

Nos últimos dias, as pessoas têm usado incessantemente as redes sociais para se posicionarem à respeito do falecimento da ex-primeira-dama do Brasil, que teve a morte confirmada pelo Hospital Sírio Libanês, na sexta-feira (3). A então esposa de Lula sofreu um AVC causado por um aneurisma.

Ora se solidarizando com o ex presidente, ora reafirmando seu posicionamento político contrário ao do último governante do Brasil, mas destacando respeito à família de Lula, as condolências vinham de todas as partes.

Mas dentre essas manifestações de solidariedade, surgiram também comentários destilados de puro ódio, que exultavam o sofrimento do ex presidente diante da morte da esposa que o acompanhou por 43 anos, entre namoro e casamento.

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Para a liberdade: São Paulo!

A garoa cai fina sobre o seu rabo de cavalo e forma um aglomerado de gotículas sobre o cabelo encaracolado que, de longe, provoca a sensação de se estar vendo fios brancos. Mas ao chegar de perto, logo percebe-se que o emaranhado é pretíssimo – cor conseguida, é claro, pela tintura, já que o correr incessante dos anos insiste em embranquecer os fios.

No topo da cabeça, porém, nenhuma confusão visual entre cabelo e chuva: a careca branca recebe as gotas de água pacientemente, e estas logo escorrem para o tufo de cabelos preso por um elástico ou então para a argolinha de ouro dependurada na orelha esquerda que há tempos perdeu o brilho pelo uso ininterrupto.

É essa a visão que tem de si mesmo ao passar por um imponente prédio espelhado da Paulista. É domingo de manhã, e ele acaba de sair da kitnet apertadíssima para esticar as pernas, respirar o ar da maior metrópole do Brasil e repetir o mantra que não lhe saiu da cabeça nos últimos 50 anos: “Ah, minha São Paulo, meu dinheiro, minhas mulheres”.

A frase é o gatilho para se lembrar de como foi parar ali.

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Luz negra de uma lembrança cruel

Em dias assim, em que a gente se sente como quem partiu ou morreu, acendo meu cigarro, boto Coltrane num volume que só eu consigo escutar e rememoro as minhas tristezas. Sim, porque o ser humano, qualquer que seja, tem esse gosto pelo mórbido, pelo sombrio, pela morte. Ora, essa, todos têm! Eu simplesmente assumo.

A primeira memória que vem à minha cabeça é sempre a de Bentinho. Já tentei pensar outras desventuras, mas o personagem do Machado de Assis insiste em ser o primeiro a ocupar minhas lembranças melancólicas. E o diabo vem todas as vezes com a mesma assertiva: “Sempre terei o sabor da dúvida, mas você provou o amargor da certeza!”

Tento rebater, dizendo que uma verdade dolorida é melhor do que mil mentiras agradáveis, mas ele sabe que minha histeria é justamente porque nunca terei a mesma sorte de nunca descobrir se Capitu traiu ou não traiu.

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O insuportável fardo da paixão

Resignação. Palavra que permeava toda a vida de João Otávio. Ao longo de seus 43 anos de existência sobre a terra, ele conformava-se com qualquer tipo de situação. Contentava-se com o emprego de escrivão, no qual se misturavam papéis, ácaros e traças; era apático ao casamento engessado com Rosemaria, e até a perda da mãe para o álcool não foi um acontecimento que lhe causou comoção.

Era dela, aliás, que aprendera tal ensinamento. “Seja sóbrio”, dizia-lhe a progenitora nos raros momentos de lucidez, quando não estava entregue ao conhaque.

Nada era nem bom nem mau. Tudo estava nem triste nem feliz. Qualquer coisa nem lhe agradava nem lhe contrariava.

Até aquela terça-feira ensolarada. A culpa era do firmamento sem nuvens. Do canto indecente dos pássaros. Da relva petulantemente verde. Aquele conjunto fez-lhe pensar. Foi como se a luz brilhante do sol finalmente lhe houvesse aberto os olhos para o mundo pela primeira vez. Em sua cabeça, o “E se?” espetou-lhe como o tridente do diabo.

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