A arte de vender

Vendedor tira seu sustento e o de sua família a partir da arte do teatro e do circo na rua.

Ontem eu estava passando na Praça Sete enquanto esperava o tempo de ir para o trabalho, quando vi uma roda de pessoas, ainda não muito cheia, em volta de um homem que segurava uma cobra de mentira enquanto falava. Já tinha visto pessoas assim no centro da cidade, mas nunca havia parado para observar pois acreditava que enquanto tivesse distraída, viria um “mão-leve” e tentaria me roubar alguma coisa. Entretanto, dessa vez decidi esperar pra ver, claro que segurando bem a bolsa caso um trombadinha aproveitasse da situação.
Quando cheguei, o homem já tinha começado o show de mágica em que ele tava um banho na cobra que em seguida guardou na bolsa. Disse que aquela mágica iria ficar para o final. Munido de sacos, pequenos objetos e água, o homem fazia mágicas de aparecimento e desaparecimento de objetos, ora os seus ora os da platéia que o assistia. Enquanto fazia as mágicas, afirmava que não queria dinheiro de ninguém, pois já era patrocinado. Também dizia que quilo não era bruxaria, como muitas pessoas já o havia acusado, ele tinha apenas o intuito de fazer com que as pessoas rissem.
Certo momento pediu o relógio a um senhor que o assistia, mas ele recusou a entregar o objeto. O homem brincou que não iria roubar o relógio, e eu vergonhosamente lembrei daquilo que tinha imaginado antes, pois naquele momento a última coisa que pensava era que alguém pudesse me roubar. O homem encantava a platéia, que só aumentava com o passar do tempo, com seu modo de falar de e seus variados truques. Os tipos de mágica que ele fazia eram bem manjadas, mas só por ser ao vivo e sem nenhum custo adicional, já era o máximo. Para o truque do relógio, ele pegou o objeto de uma mulher, já que o senhor havia recusado. O homem pediu que mulher colocasse o relógio numa bolsinha a qual ele jogou no chão e a pisou. Todos ficaram horrorizados com aquilo, a dona do relógio mais ainda. Então mostrou diversos pedacinhos daquilo que já foi um relógio. Em seguida, fez mais outros truques e depois de algum tempo, trouxe o relógio de volta inteirinho. A mulher suspirou aliviada e ele entregou um brinde a ela que parecia ser uma moeda grande.
A moeda grande, na verdade, era a caixa de uma pomadinha. O homem então explicou que ele fazia shows porque gostava e também porque vendia uma pomada muito eficaz contra dor. Pensei então que aquilo tudo não era de graça, e que sempre há um jogo de interesse. Mas depois pensei que aquilo era uma forma muito inteligente de vender sua pomada, envolvendo outros sentidos dos consumidores para chegar a seu objetivo final. Muitas pessoas compraram a pomadinha, inclusive uma pessoa que não estava na platéia, disse que queria mais da pomada, pois já havia comprado antes e tinha gostado do resultado.
O homem disse que tinha esperado até aquele momento para oferecer o produto, pois se tivesse falado antes dos shows todos iriam embora dali. Imaginei que o seu show acabaria logo, até porque eu não poderia continuar ali pois meu tempo livre já estava no fim e queria conversar com ele para saber seu nome, o nome da pomada e um pouco mais sobre o seu trabalho. Infelizmente, tive que ir naquele momento. Mas se você estiver passando pelo centro, e ver alguma aglomeração de pessoas em volta de outra, é bem provável que seja mais uma pessoa fazendo seu trabalho a partir da arte do circo e do teatro. Vale a pena conferir!