I wanna somewhere just for me

“Eu quero sair de casa.” “Não vejo a hora de ter meu próprio ap.” “A convivência com meus pais está cada dia mais insuportável.” Essas são exemplos de frases que escuto com frequência dos meus amigos. A maioria deles, para não dizer todos, têm vontade de sair de casa, seja pra ter sua independência seja pra se ver livre do convívio opressor com a família. Para mim essa também sempre foi uma grande vontade. Muitas vezes fica adormecida, quase esquecida, mas por alguns acontecimentos e outros, ela acorda alvoraçada e faminta, louca pra se concretizar.

Então, paro e me pergunto: “por que não fiz isso ainda?” Daí sempre vem a mim as mesmas respostas, aquelas genéricas que jogam umas pedacinhos de pão pra vontade comer, se contentar e voltar a dormir novamente. “morar sozinho é muito caro, tem conta de água, luz e telefone. Fora comida e aluguel, lembra?”, “você pode usar esse dinheiro pra investir em outra coisa”, “você mal sabe fritar um ovo, quanto mais cozinhar pra si própria”, “seus pais dependem de você, e você deles porque além do amor, seu salário mal dá pra se virar”.

Longe de mim dizer que essas coisas não correspondem à realidade, que são só desculpas esfarrapadas para uma mente preguiçosa. Tenho bem claro que essas coisas estão certas, especialmente pra mim. Não é nem um pouco recomendável, racionalmente falando, pegar algumas pecinhas de roupa, a escova de dentes e dizer “tô indo nessa” para os velhos. Antes de fazer isso, é necessário muito planejamento, dinheiro no bolso e pés no chão.

O meu questionamento é se esses são os verdadeiros motivos pra não sair de casa. Se são suficientes para a vontade voltar a viver apenas no mundo dos sonhos. E percebo que não, que o real motivo de não botar as asinhas pra fora é a covardia, o medo e o comodismo, o que é um pouco pior que o fato de não ter dinheiro ou disposição de aprender a cozinhar, já que são valores muito maiores que qualquer bem material.

Tenho medo, e me incluo nessa, de fazer parte de uma geração de acomodados medíocres refugiados debaixo das asas da mamãe coruja. De covardes que não conseguem ver nada além do próprio bem-estar imediato, sem pensar na sua formação como ser humano independente e crítico frente a um sistema que nos quer cada vez mais bestializados, porque, ao meu ver, a falta de coragem de sair de casa pode estar relacionada também à falta de coragem de questionar e aceitar tudo àquilo que nos submetem.

Não proponho uma revolta onde exista um grande êxodo domiciliar, mesmo porque não haveria tanto apartamento disponível por aí. Mas rever nossos conceitos sobre porque estamos tão acomodados àquilo que, há muito, não nos faz bem.