Amilcar em síntese

Belo Horizonte recebe a exposição Amilcar de Castro – Repetição e Síntese, dando oportunidade ao público de conferir o trabalho singular desse artista ainda pouco conhecido pelos mineiros
“Foi quando e de repente descobri que o avesso das águas guarda o segredo da vida e que escultura é pedra do fundo do rio. O segredo está em consegui-la sem molhar as mãos.” Com esse verso, Amilcar de Castro consegue resumir de modo poético a maneira como conduziu seu trabalho de artista como escultor. Um trabalho que traz tendências vanguardistas e que agora está exposto, com obras inéditas, em Belo Horizonte.
Desde o dia 13 de novembro, O Circuito Cultural Banco do Brasil (CCBB), espaço que faz parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade, apresenta a exposição Amilcar de Castro – Repetição e Síntese. O trabalho do artista está no pátio e no terceiro andar do CCBB divido em 16 salas que contêm esculturas em aço, madeira e vidro, gravuras, desenhos e pinturas de Amilcar produzidos ao longo de sua vida.
                                                                

        

Com objetivo de levar aos mineiros o essencial da arte e da cultura brasileira, especialmente a mineira, a exposição traz um acervo com mais de 500 obras de Amilcar, traduzido em sua sensibilidade de observar a arte de um ponto de vista singular com o método inovador de corte e dobra, proporcionando três dimensões às suas obras. O conjunto delas representa uma importante significação para as artes plásticas brasileiras.
Amilcar de Castro, que foi artista gráfico, escultor e 
desenhista, é considerado pela crítica um dos maiores artistas brasileiros do movimento Neoconcretismo criado no Rio de Janeiro que tinha por objetivo mostrar a sensibilidade e subjetividade da arte, ao contrário do Concretismo Ortodoxo, que a apresentava como mero objeto. Amilcar nasceu no ano de 1920 em Paraisopólis, pacata cidade de Minas Gerais com quase 20 mil habitantes, e, por pouco, ele seguiria os caminhos do pai, promotor de justiça, quando se formou em Direito em 1945. Mas, ao estudar na Escola Guignard, decide por se tornar diagramador e em 1957, o artista promoveu a reforma gráfica do Jornal do Brasil no Rio de Janeiro. Ainda trabalhou em importantes jornais do país, como o Última Hora e o Estado de Minas. Em 1967, Amilcar recebeu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos, onde aperfeiçoou sua arte. Quando voltou para Belo Horizonte, em 1971, dedicou-se a trabalhos educacionais e artísticos.
A singularidade das obras criadas por Amilcar está no método utilizado por ele em que, a partir de um plano, ele produz um corte no material e o dobra, formando uma terceira dimensão. Esse método pode se aplicar tanto a uma folha de papel como a uma chapa de metal. Amilcar tem obras de madeira e papel, mas sua especialidade está em criar sobre o metal, habilidade herdada da sua terra natal, Minas Gerais.
                                                                       
Para o curador do evento, Evandro de Salles, o mistério da obra do artista é quase um paradoxo: “Cada uma delas é sempre a mesma e outra. Elas nunca se superpõem em suas similaridades, pois o aparecimento de cada uma causa um deslocamento surpreendente em relação à precedente.” O curador ainda compara a obra do artista ao do compositor e músico, Sebastian Bach: “a obra de Amilcar é como uma espiral ascendente, em que há um redemoinho vertiginoso onde se estrutura um movimento circular de retorno.”
Segundo o educador do CCBB, João Paulo Andrade, a exposição se diferencia das demais: “a exposição não apresenta ordem cronológica, como a maioria delas até hoje. Ela persegue o ponto de partida do trabalho do artista, procurando mostrar a essência de cada trabalho.” Ainda segundo João Paulo, o trabalho de Amilcar é reconhecido internacionalmente: “Existem esculturas do artista em Berlim. Como ele ganhou uma bolsa de estudos no exterior, Amilcar pôde mostrar sua obra para o mundo.”
A dona-de-casa, Maria da Piedade de Assis, esteve na exposição e deu sua opinião sobre ela: “É diferente e inovadora. Acredito que cada pessoa que vê-la terá um olhar diferente. Eu não conhecia os trabalhos de Amilcar e me surpreendi com a solidez, literalmente, da obra.” (na foto: minha mãe lidinha toda contente!)                                         

Amilcar pelo Brasil – Viajando pelo país ou até mesmo andando por Belo Horizonte, você já deve ter se deparado com alguma das obras de Amilcar de Castro. A escultura mais famosa da cidade é símbolo da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Exposta na Praça da Assembleia, a obra já é figura carimbada na mente dos belo-horizontinos. Ainda é possível encontrar o trabalho do artista no Rio de Janeiro, em Brasília e até em Berlim, na Alemanha.
Você pode conferir de perto a exposição até o dia 27 de janeiro de 2014 no CCBB que fica na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Ela está aberta ao público de quarta a domingo, das 9h00 às 21h00. A entrada é franca.