Pergunta ao Abujamra

Inúmeros astistas já passaram pela sabatina de Abujamra
Muitas personalidades já passaram pela sabatina de Abujamra, dentre elas Jean Wyllys e Fábio Porchat.  Crédito: TV Cultura

“– Laura, o que é a vida?

– É uma coisa feita para perguntarmos “o que é a vida”?

– Laura, o que é a vida?

– …”

Muitas vezes, imaginei Antônio Abujamra me fazendo essa pergunta no “Provocações”, da TV Cultura. Mas, infelizmente, isso provavelmente só poderá acontecer em outro plano. Ou nos meus sonhos. Desde que soube da notícia da morte dele me senti meio órfã. E agora que vi que o Arnaldo Jabor pode ocupar um lugar no mesmo horário dele com um programa parecido, me senti mais órfã ainda.

Voltando à pergunta, sempre consegui imaginar uma resposta para a primeira vez que me indagaria. Mas a réplica me deixava sem palavras. E isso me intrigava. E só conseguia me sentir assim porque era ele quem estava falando. Não consigo pensar, pelo que conheço de TV atualmente, em outro comunicador que instigue e intrigue tanto ou mais quanto ele. Que incomode. Que não deixe acomodado. Que provoque. E isso é incrível!

O Abujamra conseguia fazer o que todo jornalista deveria conseguir: transformar o entrevistado em estrela. O destaque era todo de quem estava sendo perguntando, não de quem estava perguntando. Muitas vezes, ao assistir ao programa, gostava muito da entrevista, mesmo não sendo com alguém conhecido da grande mídia ou com uma retórica fantástica. Isso sem contar com as interpretações desse mestre. Escolhidos a dedos, os textos que ele encenava provocavam até o mais cético, como este aqui.

Sei que Abujamra teve uma carreia extensa, que passou pelo teatro, tv e cinema. Acompanhei-o mesmo foi no “Provocações”, o que já foi suficiente para deixar um legado, do qual nós, especialmente jornalistas, precisamos absorver para que saiamos deste mundinho de glamour que não existe.

Morreu dormindo… ele via muita graça quando alguém o respondia dessa forma. Talvez, para evitar que alguém o perguntasse:

” – Abujamra, o que é a morte?”

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4 comentários sobre “Pergunta ao Abujamra

  1. Acho ótimo como ele aceita qualquer resposta, com ou sem nexo, desde que a mesma seja verdadeira, original e sincera. E em contrapartida, rejeita as respostas mais filosóficas e elaboradas pois ele não admite que o entrevistado venha pronto. Ele nunca quis nada escondido em frases programadas.

    Nunca foi necessário nada mais do que alguém disposto a abrir o peito para que dessa pessoa fosse arrancada uma grande entrevista. E quando a pessoa não se abria ou tentava se esconder por detrás do entrevistador, era uma surra. Era como se ao tentar fugir, o entrevistado levasse uma “benção” no peito e voltava sem folego para dentro da entrevista. A “benção” de Abujamra era algo como: “Eu sou o entrevistador, e você o entrevistado, então responda a minha pergunta.”. Fazia parte do objetivo de tornar o entrevistado a estrela como você bem disse.
    Quem tentava se esconder, era exposto, quem tentava fugir era preso, quem tentava crescer era diminuído, quem se expunha era exaltado, quem se firmava era justificado, quem fazia pouco de si era engrandecido. E assim ele igualava todos os mortais. Famosos, bregas, gênios, estudantes, “zés ninguém”, bandidos e poetas.

    E triste, mas chegou a vez das grandes perguntas igualarem o entrevistador a todos os entrevistados.
    No fim acho que nem interessa o que é a morte ou a vida, ele nunca quis saber a resposta disso. Ele só queria ver como as pessoas respondiam isso. Da mesma forma como não é importante a morte ou a vida, o que interessa e como se responde a estes fatos inevitáveis. O que importa, é o que ele fez com o fato que é a vida. E a resposta dele, está em tudo que fez. E na minha opinião, do pouco que vi, foi uma resposta muito bacana.

    Obrigado, por ter me apresentado esse sujeito, que transformava cada entrevista em uma batalha. Batalha essa que todos já sabíamos o resultado, mas o resultado nunca importou, o destino nunca importou, a pergunta nunca importou. Só quem viu sabe o que importou.

    Curtido por 1 pessoa

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