Profissão: constrangimento

Colaboradores de diversas áreas relatam assédio moral sofrido no ambiente de trabalho; especialistas explicam consequências

“Ô, Laura, minha gerente me chamou e falou que, pelas câmeras, me viu passando o número do telefone a você. E disse que se eu falasse algo sobre a empresa, me desligaria”. A intensidade do autoritarismo revelado, via Whatsapp, por Marisa*, fez com que esta pauta, caro leitor, mudasse completamente. A atendente de uma grande rede de fast food, alocada em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, iria nos contar sobre seu dia a dia no trabalho. Contudo, a partir da negativa de sua gerente, não foi possível, nem ao menos, saber seu sobrenome e sua idade. Aliás, a ameaça era maior do que se possa imaginar: “A gerente também disse que a empresa iria nos cassar. Falou que poderia ser perigoso para a imagem das duas. Aí, é melhor não fazer, pois corremos o risco de perder o emprego e não conseguir mais trabalho. Mas, obrigada, mesmo assim”.

Diante do obstáculo inesperado, não poderíamos apenas lamentar e procurar por outra personagem. Decidimos, então, escrever, justamente, sobre o que acabávamos de vivenciar: assédio moral – neste caso, praticado pelas empresas contra seus funcionários. À forma do que ocorreu com Marisa, inúmeras instituições abusam de seu poder para coibir, humilhar ou tirar proveito dos colaboradores.

Marcelo*, de 33 anos, também passou por maus bocados. Depois de um acidente no trabalho, as coisas não foram mais as mesmas. Ele é motorista de veículos para atendimento médico de urgência. Era dia de céu claro em 2014, véspera de carnaval, quando ele dirigia uma ambulância rumo à garagem da empresa. Foi quando a porta do automóvel abriu inesperadamente, e, ao tentar fechá-la, chocou-se com gravidade contra uma árvore.

Crédito: Rafael Viana
                                                                               Crédito: Laura Maria

Por sorte, Marcelo conseguiu se recuperar das fraturas após cerca de quatro meses. Apesar disso, o motorista continua a sentir dores referentes a outros tipos de lesões. “Depois do acidente, em reuniões sem a minha presença, me difamaram, como se eu estivesse errado, sem mesmo terem me escutado para saber o que aconteceu”, recorda, ao destacar que, como “punição” pela batida, não poderá mais dirigir veículos de grande porte. Além disso, desde o ocorrido, ele é obrigado a esperar, na garagem, como uma espécie de “profissional reserva”, caso haja ausência de outro motorista. “Antes, não era assim. Eu pegava o veículo e atendia os pacientes o tempo todo. Hoje, sinto-me rebaixado”, finaliza.

O que ocorreu com Patrícia Silveira, de 19 anos, é um pouco mais grave se comparado aos casos anteriores, já que a empresa lhe negou atendimento médico depois de um acidente no próprio trabalho. A jovem, que estava empregada na mesma rede de fast food de Marisa, contou que escorregou no refrigerante que escorrera de uma lixeira quebrada, caiu e sofreu séria lesão na clavícula. Com fortes dores, foi levada ao gerente da loja. “Ele, então, me disse: ‘Passa uma pomada e põe uma faixinha que sara’”, relata. Com o restaurante lotado, a atendente ouviu que deveria continuar trabalhando até o final do expediente. Após dois dias, sem conseguir mover o braço, Patrícia procurou o médico, que diagnosticou fratura no terço lateral e revelou a necessidade de cirurgia.
Ao procurar a rede para informar as consequências da queda, nada foi feito pela empresa, que, inclusive, negou-se a emitir um Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT). “Fui ao INSS e perguntei como fazer o CAT. Deram-me o papel e me mandaram ir até meu serviço”, conta Patrícia, que afirma ter sido orientada pelo gerente a não informar a data correta do acidente para que não resultasse em multa para a loja. Patrícia denuncia, ainda, que a gerência sabia do defeito na lixeira, mas não a consertou para evitar gastos. Por um tempo, a trabalhadora viveu sob ameaças da empresa.

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                                                                               Crédito: Rafael Viana

Graves consequências

Casos como o de Marisa, Marcelo e Patrícia acontecem diariamente. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, 42% dos brasileiros já sofreram algum tipo de assédio moral no ambiente profissional. Além de perda de emprego ou mudança de cargo, as agressões podem deixar cicatrizes ainda mais fortes: os traumas psicológicos. Psicólogo e filósofo, Alvaro Oliveira cita, por exemplo, a depressão em graus elevados e somatizações corporais que chegam a matar o sujeito, o que é muito visto nos trabalhadores chineses. “Se o sujeito for psicótico, pode haver desencadeamentos de sintomas esquizofrênicos e paranoias”, esclarece.
Outra pessoa que compartilha a ideia de Alvaro é a estudante do 9º período de Psicologia da Pontifícia Universidade de Minas Gerais (PUC Minas) Camila Álvares dos Reis. “A pessoa pode se sentir acuada, triste, inibida, insegura ou com a autoestima baixa, o que não permite desenvolvimento pessoal”, diz, ao lembrar que, exatamente por saber dessas consequências, o agressor as estimula.
Camila destaca, ainda, que, dessa forma, a situação acaba se invertendo, pois a vítima acredita ser ela a errada da história. “O assédio acaba por parecer culpa da pessoa que o sofre. Além disso, por vezes, ela acredita nas características negativas que lhe atribuem e leva aquilo para a vida. Recuperar-se desse trauma é um trabalho árduo, que requer forte reconstrução das habilidades do sujeito”, analisa.
Tal recuperação, a propósito, tem sido um trabalho diário para Fernanda*. Desde que deixou seu antigo estágio, em junho de 2014, não conseguiu encontrar outro trabalho em sua área de atuação. A jornalista trabalhava em uma emissora de TV, mas recebeu uma proposta de outro estágio. Pelo que parece, sua chefe descobriu e tomou uma atitude precipitada. “Ela procurava currículos agressivamente e a perguntei se meu colega de estágio iria sair. Veio, então, a resposta agressiva: ‘Não, é você quem vai sair, não é você quem quer sair?’”, relembra, ao contar que sua superiora foi muito ríspida. “Minha chefe disse: ‘Vai sair e não me fala nada? Pensa que isso aqui é o quê? É circo para ficar pulando de um lado para o outro?’”.
No fim das contas, Fernanda ficou sem os dois empregos, pois a proposta do novo serviço não foi adiante, enquanto ela foi dispensada do estágio. “Senti-me humilhada, passei cerca de cinco meses sem conseguir tocar no assunto. Meus pais me ajudaram. Na verdade, meu pai chegou a conversar com o gerente administrativo da emissora, para quem eu havia ‘infringido a autoridade’”, lamenta, ao ressaltar que, posteriormente, descobriu que a empresa tem vários processos trabalhistas.
Assim como Fernanda, Marcela* sofreu na empresa de tecnologia da informação em que trabalhava quando era estagiária, exclusivamente por causa de sua função. “Sentia que todos lá ignoravam minha presença”, disse a jovem, ao relatar que, certa vez, uma colega de trabalho sugeriu que ela desistisse de seu serviço. Hoje, Marcela, que está contratada, afirma que o tratamento mudou.

Abuso sexual no trabalho e superação

Crédito: Laura Maria
                                                                                Crédito: Laura Maria

Ao contrário de muitos casos, Joyce* afirma que a forma com que sofreu o assédio na empresa em que trabalhava foi sutil. “O chefe passava a mão na minha cintura, admirava minhas pernas, apertava meu braço, tudo bem discretamente”, relembra. Ela, porém, conseguiu perceber a atitude e se impôs ao seu superior. “Sempre respondia que não estava interessada na frente de todos e acho que, com isso, ele perdia um pouco de sua autoridade”, comenta. Depois de dois meses, porém, Joyce acabou sendo demitida.
Apesar de não ter saído de livre e espontânea vontade, o caminho tomado por Joyce é recomendado pela estudante de psicologia Camila. “É preciso sair do trabalho, porque ninguém consegue permanecer em uma situação de desconforto por muito tempo”, afirma a aluna, que recebe apoio do psicólogo Alvaro. “Podemos sugerir a busca de um psicólogo, além do apoio familiar e de amigos. O próximo passo é que o trabalhador busque aquilo que o realize de fato”, analisa.
O especialista ainda percebe um cenário em que o assédio moral por parte das empresas seja atenuado. “Apenas uma mudança estrutural em como lidamos com a questão do trabalho é que poderia mudar a relação injusta que existe entre trabalhador e empregador”, finaliza.

Crédito: Rafael Viana
                                                                              Crédito: Rafael Viana

*Nomes fictícios

Matéria originalmente publicada no Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social do UniBH Impressão – junho/2015

Amanda Del Papa
Laura Maria
Luiz Vasconcelos
Mariana Menezes
Mylena Lacerda
Nayara Oliveira
Thiago Valu
Valter Crispim

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