Terapia em grupo

Acordou da pior maneira possível. Com o som do despertador. Já tinha se decidido a trocar o jeito como se levantaria da cama, mas a possibilidade de sair da inércia já o deixava em frangalhos, por isso, era melhor continuar acordando de forma trágica todos os dias a ter que modificar seus hábitos. “Você só vai conseguir mudar o que tem feito depois que for para terapia”, dissera seu médico, pelo menos nas últimas dez vezes que o visitara. Permanecer em casa, com saída quase que exclusiva para o consultório, só fez com que a hipocondria tomasse proporções maiores.

Como das últimas vezes que se consultara, a recomendação do especialista não surtiu nenhum efeito. Sabia que aquela coisa de contar todos os sofrimentos, temores e angústias para outra pessoa era só manipulação da classe médica para que sentissem o ego mais massageado. Sabia disso como ninguém.

Mas, naquela noite, depois de mais uma maratona de filmes, assistir ao “Clube da Luta” pela vigésima terceira vez fez com que uma nova ideia surgisse à cabeça: a terapia em grupo. Sabia o quanto aquilo era ridículo, mas se expor para um monte de viciados, malucos e drogados, de repente, lhe pareceu algo excitante. Quem sabe, assim como Jack (na pele de Edward Norton), não descobriria ali uma fonte de prazer alucinante.

Crédito: Siko/reprodução
Crédito: Siko/reprodução

A ideia, porém, não tornou menos catastrófica a obrigação de levantar da cama. Depois de quase quarenta minutos trocando de posição entre os lençóis, e com o despertador tocando a cada dez minutos, levantou-se e arrastou-se até o banheiro. Olhou-se longamente no espelho, e percebeu mais um fio de cabelo branco e as maçãs do rosto caídas. Uma remela apontava insistente no canto do olho. O cenário não podia ser mais animador.

Apressou-se, no entanto, pois, assim como pesquisara na internet, a sessão começava às 11h. Depois de tomar suas doses diárias de remédio da farmácia de manipulação – a hipocondria o levou a apelar também para homeopatia – saiu em disparada ao encontro com estranhos.

Chegou pouco antes do início e, por isso, pôde observar quem estava ali. Nenhuma das pessoas se assemelhava a Helena Bonham Carter tampouco ao Brad Pitt. O passatempo de analisar cada um dos que estavam presentes lhe distraiu tanto, que nem percebeu alguém lhe perguntando qual era a sua profissão. O questionamento foi feito de forma mais assertiva, e ele, de supetão, respondeu:

–  Sou  psicólogo.

Fora pego. Era tudo o que não queria dizer.

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2 comentários sobre “Terapia em grupo

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