Ilusões perdidas (de Luan Gonçalves)

Mocassim verde nos pés, calça saruel jeans com três botões laterais, camisa com decote em V, de onde se enxerga ralos pelos no peito. Ao menos três colares pendurados no pescoço. Dessa forma, Luan Gonçalves, o Baiano, trabalhou naquela quinta-feira. Quem comprou pipoca em seu carrinho, porém, só pôde ver o calçado colorido, já que um jaleco branco cobria todo o resto.

“Tenho um carrinho de pipoca, vendo coquinho e amendoim. Ganho muito mais do que quando fazia estágio na Record.” Quanto? “Depende da semana, às vezes tiro R$ 500 ou R$ 600. Daí, no fim do mês dá R$ 2.000. Também já faturei R$ 300, R$ 350 reais. Mas é mais do que ganhava no mês inteiro!”, enfatiza. A voz de Luan não vacila, apesar de uma escuridão invadir seus olhos enquanto fala.

Em 12 de janeiro de 2012, no fim de uma tarde quente em Eunápolis, interior da Bahia, Luan fechava a sua mala de couro – presente do avô – depois de ter colocado nela sua última calça saruel. Deu um beijo na testa enrugada de sua mãe. “Estou indo pra faculdade”, anunciou. A matriarca estava tranquila, pois sabia que o filho ficaria em segurança na casa de seus primos. Rogou-lhe bênçãos. “Vá com Deus, meu bem!”. E com um sorriso largo, Baiano partiu rumo a Belo Horizonte.

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Minutos antes de adormecer na poltrona do ônibus São Geraldo, veio lhe à cabeça um sonho que, desde a infância, conhecia muito bem. Sentado em uma cadeira, por trás de uma bancada, trajando um terno impecável, diria, no melhor estilo à la Willian Bonner, “boa noite!”. Com a saudação, ainda fazendo festa em sua mente, adormeceu.

A emoção que transbordava no nordestino, porém, esvaiu-se pouco menos de cursar um ano no jornalismo. Assim como o jovem poeta Lucien Chardon, de Balzac, depois de ter deixado o interior da França e descobrir faceta antiética da imprensa da época, Luan é convicto em sua ideia de que nada mostrado nos jornais seja real. “Tudo manipulação. Apenas sensacionalismo em busca de audiência”, analisa. “Uma pena”, lamenta um professor com outros colegas. “O Baiano tem muita energia e espírito de liderança”, completa.

Não é à toa que tanto seus mestres quanto seus companheiros de estudo não lhe dão crédito quando o nordestino radicado em Minas repete o mantra de que “o jornalismo é uma mentira”. Na opinião de uma amiga, mal sabe Baiano que ele só encontrou a verdade quando conheceu mesmo a profissão. “O Luan sabe contar histórias. É por isso consegue vender tão bem. Pratica o jornalismo diariamente sem nem ao menos se dar conta”, afirma.

Apesar dos conselhos, Luan é irredutível. “Não quero mais saber do jornalismo”, diz. Engana-se, porém, quem acha que o pipoqueiro, de 22 anos, parou de pensar alto. Pelo contrário. “Aprendi a gostar de cinema na universidade”, anima-se, ao se despedir, quando os primeiros pingos de chuva molham seu cabelo cacheado. “Vou viver de ficção que é melhor”, grita. De longe, é possível ouvi-lo prometer que ano vem vai para Austrália ou Estados Unidos viver da sétima arte.

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