Precisamos falar sobre as abelhas – Um breve ensaio sobre o fim dos tempos

Por Elias Rangel

Nutricionistas, agricultores e membros de esquadrões antibomba concordam. As abelhas são animais fascinantes.

Dotadas de uma capacidade de organização e consciência coletiva invejáveis, as abelhas vivem em sociedades que podem contar com até 80.000 membros e, mesmo assim, cada um sabe exatamente o papel que deve exercer. A colmeia conta com apenas uma abelha rainha, responsável por botar aproximadamente 2.000 ovos por dia, algumas centenas de zangões, cujo o único papel é fecundar a rainha, e milhares de operárias, que fazem todo o trabalho e se comunicam entre si com uma dança, cuja descoberta rendeu um Prêmio Nobel em 1973.

Até esse ponto, você poderia dizer que as abelhas estão bem próxima de suas “primas” formigas. Então, o que há de tão especial nesse inseto que causa pavor em tanta gente? Além de tudo isso, a singularidade da abelha se dá por ser o único inseto capaz de produzir alimento para o ser humano:  o mel.  Este que também é impar, pois é o único alimento natural nutritivamente completo para a sustentação da vida. Ele contém  vitaminas, minerais, aminoácidos, carboidratos, proteínas e alto valor energético, além de ser um agente antibactericida e, cá entre nós, uma delícia!

E as abelhas vão mais além. Certa vez, o também Prêmio Nobel e renomado cientista Albert Einstein disse: “Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência”. Neste momento, algumas pessoas devem estar se perguntando se de tanto estudar, o gênio da relatividade ficou perturbado e começou a achar que todo mundo vive de comer mel. Mas não, Einstein não estava maluco. O fato é que além de produzir mel, as abelhas são responsáveis por polinizar 71 culturas, das pouco mais de 100, responsáveis pela alimentação do planeta. Sem as abelhas, boa parte de nossa flora, incluindo vegetais e frutas, não se reproduziria e logo deixaria de existir.  Animais que sobrevivem destes alimentos entrariam em extinção e provavelmente nós também. Muita gente não sabe, mas, para produzir a maçã que está na sua geladeira, o agricultor contratou dezenas de colmeias, afim de que as abelhas fecundassem as flores da macieira, para que elas gerassem frutos. E isso acontece com melancia, pepino, café, amêndoas e inúmeros outros alimentos.

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Já que as abelhas são tão importantes assim para a sobrevivência da humanidade, ninguém seria estúpido o suficiente para causar a extinção delas, correto? Eu sei o que vocês pensaram! Sempre tem alguém estúpido o suficiente, não é mesmo? E eu odeio admitir, mas, vocês têm razão. E nesse caso, foi o líder Comunista Chinês, Mao-Tsé Tung, com seu programa chamado “Campanha das Quatro Pragas”, cujo o objetivo era erradicar 4 pragas do país. Eram elas: as moscas, ratos, mosquitos e pasmem, os pardais. Sim, pardais! A explicação era de que os pardais comiam os grãos do povo.  Sendo assim ordenaram o extermínio dos pardais, que quase foram extintos da China. O problema é que os pardais não comiam só os grãos, mas também muitos insetos, e com a erradicação deles, o número de insetos aumentou significativamente, o que fez com que a produção de alimentos caísse. E como grandes cagadas sempre vem em par, usaram pesticida para eliminar os insetos, o que seria um sucesso, se as abelhas não fossem dizimadas também.  Mais de 50 anos depois, ainda existem regiões na China onde a polinização de plantações inteiras é feita manualmente. É um trabalho custoso, pois cada flor de uma árvore tem que ser polinizada individualmente por uma pessoa, enquanto as abelhas são dezenas de vezes mais eficientes.

Vale lembrar que durante o período da Campanha das Quatro Pragas de Máo, além da eliminação dos pardais e das abelhas, o governo cometeu diversos erros de gestão, que aliados a catástrofes naturais sucumbiram em aproximadamente 30 milhões de mortes, das quais boa parte devido à fome, números  estes que podem ser comparados aos da segunda guerra mundial. Foi um terrível exemplo de como o mundo poderia acabar.

Porém, somos todos conhecedores da extrema capacidade da humanidade de aprender com seus erros, não é verdade? Não, não é verdade. Não aprendemos e a quase uma década as abelhas estão morrendo, porém desta vez, o problema é global. Em Santa Satarina, apicultores relataram muitas perdas em suas colmeias, na Califórnia, há relatos de perda de 60% das abelhas, e na Europa, os índices chegam a 80%. A doença responsável por isso é a Colony Collapse Disorder (CCD), (Desordem do Colapso das Colônias, em inglês), que faz com que as abelhas percam a orientação e não voltem para a colônia. Muitas causas foram levantadas, porém, o uso de pesticidas e fungicidas é a única que é unânime entre os especialistas, principalmente os do tipo neonicotinoide, que foram proibidos em diversos países inclusive no Brasil, mas devido a pressão de grandes produtores ,logo foi liberado. E estamos, dessa forma, ensaiando uma catástrofe sem precedentes em nosso planeta.

Para continuarmos tomando cafezinho ou chocolate, vestindo roupas de algodão, se refrescando com um Coca-Cola gelada, ou simplesmente, divagando e admirando o cair das folhas do Ipê perante sua florada suntuosa, precisamos falar sobre as abelhas.

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