Carta para Victor

Não posso te chamar de caro, amigo, querido, então, você será apenas

Victor,

Medo. Esse foi o primeiro sentimento que tive ao te ver. Estava sonolenta no banco da frente do carro, depois de um dia exaustivo, quando meu pai disse: “Não saiam. Tem um cara suspeito no portão”. Minha mãe no banco de trás não ouviu, abriu a porta e saiu. “Mãe, volta pro carro”, pedi, ao tomar consciência do que estava acontecendo. Ela retornou sem pestanejar, e meu pai desceu para entrarmos em casa.
Apreensão. Foi a segunda coisa que senti. Assim que eu e minha mãe passamos pra dentro, você entrou no carro e sentou-se no banco que eu estava. Ficou ali sem dizer nada. Meu pai falou pra você sair, e você obedeceu sem pronunciar uma palavra. Assim que meu pai arrancou o carro, você permaneceu onde estava: em frente à minha casa, empunhando o dedo como se estivesse apontando uma arma.
Angústia. Era o que eu sentia ao perceber que meu pai demorou ao voltar pra casa depois de ir guardar o carro na garagem dos meus avós – a dois quarteirões de onde moro. O celular da minha mãe tocou, e meu pai disse que estava atrás duma árvore, esperando a polícia chegar. Nesses minutos que sucederam, acompanhei, do andar de cima, todos os movimentos seus que pude enxergar. Era um olho em você, e outro atrás da árvore, onde meu pai permanecia. Lá, ele parecia muito mais suspeito que você.

sombra
Crédito: Apenas 1
Alívio. Desculpa, mas senti isso na hora que vi as luzes vermelhas giratórias se aproximando. Meu pai também percebeu que a polícia estava chegando e saiu de trás da árvore. Ainda no andar de cima, vi o policial sacando a arma e pedindo para você virar de costas. Ao ver que você não representava perigo nenhum, trocou a arma letal por um par de luvas cirúrgicas. “Usou crack o dia inteiro, né?”, perguntou ele, sem ouvir resposta sua.
Compaixão. Senti quando, já na rua, ouvi o policial perguntando sua idade. “14 anos?!”, ele pareceu perplexo com a sua resposta. Olhei para as suas costas e vi que tinha uma tatuagem. Você mal conseguia andar. Responder às perguntas do policial era algo tão difícil para você quanto ter a chance de nunca ter sido parado pela polícia. “Tadinho”, soltei, sem pensar.
Revolta. Foi o que me subiu à cabeça e ao coração quando ouvi: “Você tem dó disso aí? Isso aí faz coisas horríveis, estupra, rouba, não pode ter dó não. Isso é drogado”, falou um policial. O outro que estava tentando arrancar uma palavra sua pareceu me entender. “Mas por quê está drogado? Se tivesse o mínimo de condições que tive, talvez não estaria na rua, sem ninguém por ele”, falei.
Não posso dizer que fiquei tranquila ao ouvir que o policial mais humano não te levaria, mas pelo menos imaginei ter sido o melhor a ter sido colocado na viatura, e sabe-se lá… “Desce a rua e não olha pra trás”, ordenou ele. Mas medo, apreensão, angústia, alívio, compaixão, revolta. Victor, de nenhum desses sentimentos você precisava, se antes um único fosse transbordado a você gratuitamente: amor.
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