Quando for preciso, deixai cair as folhas

Uma volta pela praça da Liberdade ou um passeio de ônibus pela avenida Afonso Pena são suficientes para se ficar embasbacado. Até o mau humor se esvai, nem que seja por alguns segundos, ao se observarem os ipês que começam, atrevidos, a despontar sua explosão de cor. Até o céu fica perplexo com tamanha ousadia e fica mais azul nesta época para que essas árvores assanhadas fiquem em evidência.

A dúvida, porém, vem no coração da mais fiel admiradora dessa espécie. Saberia eu identificar tal planta fora da sua época de floração? A resposta vem certeira, com uma ponta de tristeza. Não. Primeiro, porque não entendo nada de botânica (apesar de achar essa área da biologia fascinante), depois, porque ela se mistura às outras com as folhas verdes – ou a falta delas.

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Nunca deixe de fazer algo por falta de companhia

Há mais ou menos um ano, recebi uma notícia bombástica! Pearl Jam tocaria na minha cidade-natal, Belo Horizonte. Há uns meses, a venda de ingressos foi aberta, e eu comprei no mesmo dia. Como, nessa época, estava rolando corte de funcionários no local em que trabalho, fiquei com medo de meu pescoço ser o próximo a ser cortado e optei por comprar o ingresso mais barato, na arquibancada.

Mas eu não conhecia ninguém que havia comprado no mesmo setor e, se não encontrasse alguém que o tivesse feito até o dia do show, iria sozinha. No começo, a ideia me assustou um pouco, mas EU IRIA VER O PEARL JAM! Nada mais importava. Fiquei tranquila.

Os meses se passaram, não encontrei ninguém, mas também não procurei, até que chegou o dia do show. Consegui carona com dois amigos que também iriam ao show, mas em setor diferente, e uma delas ficou falando o tempo todo que eu deveria achar alguém pra me fazer companhia. Mas ter alguém do meu lado era a última coisa que me importava naquele momento. EU IRIA VER O PEARL JAM.

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Meus olhos não veem mais Bento Rodrigues

Eu tinha acabado de voltar do recreio, e a professora Amélia tinha pedido silêncio pelo menos umas três vezes. Claro que ninguém a ouvia porque a Fernandinha tinha trazido pra sala um pintinho da casa escondido dentro da mochila. O trato é que se ela conseguisse fazer com que nenhum professor ouvisse os piados, seria eleita a nova líder do MME (Meninas e Meninos Espiões). Mas quando os gritos da diretora invadiram o corredor, ninguém mais se importou com a maior atração de segundos atrás. Fiquei lembando do pintinho depois, pensando se ele morreu sufocado, ou se conseguiu escapar, se morreu soterrado.

“Estourou tudo! Tirem os meninos da sala! Saiam da escola agora! Pelo amor de Deus!”

Nunca tínhamos ouvido a diretora gritar, as professoras, sim, ela não. Então, isso só fez com que a gritaria na sala fosse maior ainda, e eu quase fui atropelado. Ainda consegui pegar minha mochila que estava no fundo da sala. O boneco do Ben 10 estava lá, e era o meu único presente da minha madrinha de Belo Horizonte. Minha mãe tinha deixado que eu o levasse pra escola com uma condição: “Deixe ele sempre na mochila, e se perder, apanha!”. Não tava a fim de levar chinelada nem perder meu presente novinho.

Nunca vi tanta lama.

Nunca.

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A solidão é azul anil

Entre a parte mais linda do dia e a mais angustiante há uma linha literalmente tênue. Quando o poderoso rei sol, em toda sua franca luminosidade, está prestes a deixar de aquecer a terra, transforma todo ambiente em beleza. A luz dourada “invade o chão do apartamento”, como diz Vanessa da Mata, repousa nos prédios fatigados e deixa as pessoas – ah, sim, as pessoas – muito belas! Não há quem consiga, nem com o pior humor do mundo, ficar feio quando bronzeado pela luz fim de tarde/começo de noite.

Mas quando o último raio de sol dá o último suspiro e morre no horizonte é que ela começa: a hora mais angustiante do dia (ou seria da noite?), também conhecido como crepúsculo vespertino. O céu fica num azul anil (nem claro nem escuro), que era para ser maravilhoso, mas a única coisa que consigo sentir é uma força torturante. Quando as cigarras começam a cantar, com seu zunido de lamento, então, é que a sensação se torna mais forte sufocante.

Por quê acho essa a hora mais apavorante? Não tenho certeza. Talvez pela sua falta de postura. Ora! Não é dia, não é noite. Não está claro nem escuro. As luzes dos postes e das casas – reparem! – não iluminam nada. Até Baudelaire parece concordar comigo quando adverte quanto a este horário: “Recolhe-te, minha alma, neste grave instante, E tapa teus ouvidos a este som uivante. É o momento em que as dores dos doentes culminam!”

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Música pra transpassar a alma

Ele sustenta o bigode e o cavanhaque da mesma forma que pleita os brincos de argola, o turbante e os lábios e olhos maquiados. Este é Liniker, vocal do projeto musical de mesmo nome, fundado em Araraquara, cidade do interior paulista, no finzinho do ano passado. Mas essa descrição se torna pobre e superficial quando você assiste aos três videoclipes de “Cru”, primeiro EP da banda, com o selo Vulkania. Aí é que a coisa se transforma.

Com um som arrebatador, que capta até a alma mais apática, o Liniker traz uma obra completa que faz bem para os ouvidos e para os olhos, mas especialmente para a alma. Fiquei horas perdida em meu encantamento, que só consegui descrever o som deles depois de muito escutá-los – alguns vão falar que isso é desculpa esfarrapada para justificar o meu clique insistente no replay.

A música que me fisgou foi “Zero”. Estava passeando pelo Youtube quando o vídeo apareceu nos relacionados. O clique foi suficiente para me deixar no chão. O Liniker tem uma voz rasgada, como bem disse um amigo, que traduz todo o sentimento da música, que fica entre melancolia e romantismo. A canção recebe a pitada fundamental das back vocals, e a cartada final vem com a guitarra funkeada e o arranjo vigoroso do trompete. O resultado é um soul contemporâneo de ótima qualidade acrescido da música black brasileira. Sem mais delongas:

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