A solidão é azul anil

Entre a parte mais linda do dia e a mais angustiante há uma linha literalmente tênue. Quando o poderoso rei sol, em toda sua franca luminosidade, está prestes a deixar de aquecer a terra, transforma todo ambiente em beleza. A luz dourada “invade o chão do apartamento”, como diz Vanessa da Mata, repousa nos prédios fatigados e deixa as pessoas – ah, sim, as pessoas – muito belas! Não há quem consiga, nem com o pior humor do mundo, ficar feio quando bronzeado pela luz fim de tarde/começo de noite.

Mas quando o último raio de sol dá o último suspiro e morre no horizonte é que ela começa: a hora mais angustiante do dia (ou seria da noite?), também conhecido como crepúsculo vespertino. O céu fica num azul anil (nem claro nem escuro), que era para ser maravilhoso, mas a única coisa que consigo sentir é uma força torturante. Quando as cigarras começam a cantar, com seu zunido de lamento, então, é que a sensação se torna mais forte sufocante.

Por quê acho essa a hora mais apavorante? Não tenho certeza. Talvez pela sua falta de postura. Ora! Não é dia, não é noite. Não está claro nem escuro. As luzes dos postes e das casas – reparem! – não iluminam nada. Até Baudelaire parece concordar comigo quando adverte quanto a este horário: “Recolhe-te, minha alma, neste grave instante, E tapa teus ouvidos a este som uivante. É o momento em que as dores dos doentes culminam!”

O Grito, de Edvard Munch
O Grito, de Edvard Munch

E hoje, ao olhar o azul anil entrecortado entre as cortinas da sala, senti algo além da angústia, a solidão. Sentada no sofá, ao tirar os olhos do brilho do maldito celular, olhei além da janela por alguns minutos que pareceram horas e me senti completamente só, mesmo com a minha mãe e irmã e meus dois sobrinhos na casa, mesmo com os muitos familiares e amigos que, mesmo distante, sei que me querem bem, mesmo com a minha cachorra Lassie, mesmo com as muitas pessoas que sei que vou conhecer… Tudo me pareceu tão solitário.

Não suportei ficar nesse momento por muito tempo, mesmo porque a solidão é uma dança difícil de ser bailada, mas cheguei à conclusão que se eu pudesse a definir em uma cor seria, sem dúvida, azul anil.

“Solidão palavra cavada no coração resignado e mudo no compasso da desilusão” (Paulinho da Viola)

Train Smoke, de Edvard Munch
Train Smoke, de Edvard Munch
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2 comentários sobre “A solidão é azul anil

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