Meus olhos não veem mais Bento Rodrigues

Eu tinha acabado de voltar do recreio, e a professora Amélia tinha pedido silêncio pelo menos umas três vezes. Claro que ninguém a ouvia porque a Fernandinha tinha trazido pra sala um pintinho da casa escondido dentro da mochila. O trato é que se ela conseguisse fazer com que nenhum professor ouvisse os piados, seria eleita a nova líder do MME (Meninas e Meninos Espiões). Mas quando os gritos da diretora invadiram o corredor, ninguém mais se importou com a maior atração de segundos atrás. Fiquei lembando do pintinho depois, pensando se ele morreu sufocado, ou se conseguiu escapar, se morreu soterrado.

“Estourou tudo! Tirem os meninos da sala! Saiam da escola agora! Pelo amor de Deus!”

Nunca tínhamos ouvido a diretora gritar, as professoras, sim, ela não. Então, isso só fez com que a gritaria na sala fosse maior ainda, e eu quase fui atropelado. Ainda consegui pegar minha mochila que estava no fundo da sala. O boneco do Ben 10 estava lá, e era o meu único presente da minha madrinha de Belo Horizonte. Minha mãe tinha deixado que eu o levasse pra escola com uma condição: “Deixe ele sempre na mochila, e se perder, apanha!”. Não tava a fim de levar chinelada nem perder meu presente novinho.

Nunca vi tanta lama.

Nunca.

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Crédito: Douglas Magno/Divulgação

Era um rio gigantesco! Sujo! E a água descia a mil por hora! Lembro que de onde vinha a água era o Montante, morrinho perto da barragem que a gente subia e fazia manobras na bicicleta do Pedro. A gente sempre brincava de pular os buracos com a bike dele e não podíamos desequilibrar. No sábado, a gente já tinha combinado de ir pra lá. Pra falar a verdade, só estou lembrando disso agora, porque sebo nas canelas! Subimos disparados fugidos do rio. Vi que a Marcela levou um tombão e machucou a bunda. Mas na mesma hora ela levantou e correu também.

Nunca corri tanto.

Nunca.

Sempre fui bom em corridas, por isso, nunca liguei muito pra quando as pessoas me chamavam de magrelo. Lembro de quando apostávamos corrida perto da barragem, já que a terra lá perto tinha um descampado. Uma vez caí a esfolei o corpo todo. Fiquei uns três dias sem ir a aula. Mas vi na TV como ficou o Pistão e tudo em volta era lama. A casa de tia Dirce sumiu assim como a de Antônio assim como a da maioria de Bento. A minha vi o telhado e só.

Nunca tive tanto medo.

Nunca.

Depois que conseguimos escapar, cadê pai, cadê mãe e cadê Priscila? Me deu uma aflição daquelas. Nem com as histórias de terror que o Patrick contava pra gente me deu tanto medo. (E por falar nele, fiquei sabendo que sua mãe, a dona Marta, teve um ataque de nervos ao vê-lo arrastado pela lama e está até hospitalizada. O Patrick virou um rejeito de minério no mar de lama). Fiquei cinco horas sem saber de ninguém. Ver todo mundo se encontrando com os pais me dava mais agonia. A professora até tentou me acalmar, mas alívio me deu mesmo quando vi os olhos da minha mãe cheios d’água, meu pai com cara de preocupação, e até a chata da Priscila tava chorando.

Nunca senti tanta sede.

Nunca.

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Crédito: Douglas Magno/Divulgação

Depois que encontrei minha família, nenhum helicóptero veio nos tirar de lá. Nenhum caminhão de bombeiros apareceu. Aprendi a nunca mais confiar nos filmes. Passamos a noite inteira sem comida e com frio. Todo mundo tava fedendo. Mas o pior mesmo foi ficar sem água. Água limpa pra beber, igual a do corrégo do fundo da minha casa. Lembrei das piabinhas que começavam a aparecer, e nunca desejei beber tanto daquela água com peixe e tudo.

Nunca tinha visto Bento Rodrigues na TV.

Agora é tudo o que ouço.

Depois da noite mais longa da minha vida, fomos levados pra Mariana. Em uma escola de lá, consegui beber água, comer e ainda arrumar umas roupas. Meus pais e a Priscila também e muitos dos meus vizinhos. Improvisaram uma TV na escola e de lá tudo o que ouço é: “Bento Rodrigues desapareceu”. Na minha cidade, nunca aconteceu algo que alguém achasse importante de ir pra TV. E agora que descobriram, não posso mais vê-la, só lama.

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