Quando for preciso, deixai cair as folhas

Uma volta pela praça da Liberdade ou um passeio de ônibus pela avenida Afonso Pena são suficientes para se ficar embasbacado. Até o mau humor se esvai, nem que seja por alguns segundos, ao se observarem os ipês que começam, atrevidos, a despontar sua explosão de cor. Até o céu fica perplexo com tamanha ousadia e fica mais azul nesta época para que essas árvores assanhadas fiquem em evidência.

A dúvida, porém, vem no coração da mais fiel admiradora dessa espécie. Saberia eu identificar tal planta fora da sua época de floração? A resposta vem certeira, com uma ponta de tristeza. Não. Primeiro, porque não entendo nada de botânica (apesar de achar essa área da biologia fascinante), depois, porque ela se mistura às outras com as folhas verdes – ou a falta delas.

E foi esse questionamento que mais me inquietou. O ipê, para mostrar a sua florescência em plenitude, perde todas as suas folhas. Não há uma cor verde que dispute espaço com a roxa, com a amarela, com a rosa ou com a branca. A árvore passa determinado tempo abdicando-se de suas folhas, parte essencial que integra o seu processo de respiração. Mas elas caem mesmo. Uma a uma.

Por que, então, não só admirar os inúmeros buquês oferecidos aos nossos olhos, como também trazer para a vida a lição dessa singular árvore? Assim como o ipê, é preciso que deixemos cair nossas folhas. Elas podem ser um relacionamento que já não dá certo e no qual insistimos, apostamos todas as nossas fichas, até ficarmos desgastados; pode ser um erro que cometemos há bastante tempo, mas do qual nos lembramos como se fosse de ontem; pode ser um sonho cuja realização adiamos por mais tempo – afinal, tem-se a vida inteira pela frente. Será?

Talvez, nem nós saibamos mesmo o que está velho e precisa ser descartado. Ou tapamos os olhos a algo que insiste em, vez por outra, vir à superfície. Mas as flores com suas cores estão dentro de nós prontinhas para explodir e transformar o ambiente a nossa volta. O sacrifício, nesse caso, se faz necessário.

Ou preferimos que as flores murchem antes mesmo de nascerem? Também é uma escolha. Mas que saibamos fazê-la com consciência, que não tenhamos medo de nos mostrar, de dar a cara a tapa, de pagar pra ver. Pode ser até que tenha alguém que não concorde com a mudança, que torça o nariz só de ouvi falar em deixar para trás tudo aquilo que esteja arraigado. Até hoje, porém, eu nunca ouvi falar de alguém que ache feio – ou inútil – um ipê.

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