Hoje ainda é Carnaval!

Depois de dias de farra intensa no Carnaval, acordou naquela quinta-feira com uma ressaca absurda. A bebedeira, porém, não configurava o único motivo do mal estar do sujeito. Além da cerveja mais catuaba consumida desenfreadamente desde a sexta à noite, a sensação de não pintar o rosto nem de poder se banhar de purpurina e sair nas ruas vendo gente sorrindo até as orelhas lhe causou profunda dor.

Sair da cama naquelas condições nem pensar! Vai que, ao botar o pé pra fora de casa, ele encontrasse com alguém apressado falando ao celular? Ou então, ao adentrar a Estação Central, os rostos mal humorados contaminassem aquela alegria que cultivou tão deliciosamente durante esses dias? A melhor opção ainda seria acender um cigarro, enrolado por ele mesmo e esperar o dia passar.

Entre um trago e outro, sua opção era devanear. Seus pensamentos logo voltaram-se para aqueles dias de intensa e volúpia farra. Lembrou-se que na sexta-feira, ao pegar um bloco já em andamento – gostava mesmo era de chegar na concentração – encontrou-se com aquela que seria a musa do seu carnaval. Depois de ver que a moça curtia a folia genuinamente aproximou-se e, com poucas palavras, muitos sorrisos, logo se entregaram aos beijos ardentes. E se um perdia o fôlego por algum instante, o outro logo lhe recuperava com outro beijo fulminante. Agora, deitado, pensava por onde andava aquela que foi capaz de fazer-lhe perder os sentidos e a direção.

Crédito da foto: Flávio Charchar
Crédito da foto: Flávio Charchar

Mas a bela carnavalesca não foi a única responsável por levar o sujeito à “perdição”. Agora com a bituca do cigarro queimando-lhe os dedos, lembrou-se da pulsação que invadiu a cidade logo nos primeiros raios do sábado. Era uma mistura de cor, música, fantasia e alegria concretizada sob o sol escaldante. Era impossível permanecer alheio àquele rebuliço alegórico que só aumentava ao longo do dia.

Só no domingo é que pôde sentir o peso de seus 27 anos de sedentarismo. Apesar de esguio, as dores no corpo denunciavam-lhe a pouca prática saudável. Nada que dois copos de café, substitutos da catuaba naquela manhã, pudessem resolver. E assim, munido do poder ultra-reparador da cafeína, perdeu-se mais uma vez nas ruas de uma Belo Horizonte que tinha sede de ser feliz naquele instante.

O sono, que chegou de mansinho querendo-lhe cerrar os olhos, não o permitiu mais lembrar dos outros dias da farra. Acordou de sobressalto com o toque do celular. Era o amigo lhe chamando pra uma já ressaca de carnaval, que aconteceria na quinta mesmo, dali a meia hora. Era o tempo de tomar um banho, beliscar alguma coisa e ser possuído pela rua de novo. O que ia fazer depois? Não sabia nem precisava de resposta, porque ainda “hoje é carnaval“.

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