Olhos, para quê te quero?

Visibilidade LGBT é um assunto que tem começado a ser discutido em redes sociais e, graças a coletivos sociais, ganhado mais força. Mas o tema, muitas vezes, é um tabu no ambiente universitário

Por Laura Maria e Mylena Lacerda

Quando se lembra da época em que estudou no UniBH, a publicitária Júlia Cruz, de 24 anos, inevitavelmente sente uma pontada de tristeza. É que no período em que cursou Publicidade no campus Antônio Carlos, entre 2010 e 2013, Júlia não se recorda de uma discussão sequer sobre a visibilidade LGBT na faculdade.

“Era um tremendo silêncio”, afirma, ao ressaltar que o tema nunca foi tratado em palestras nem em seminários e que, além disso, parecia ser um tabu entre os estudantes.

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Era um tremendo silêncio – Júlia Cruz, ex aluna do UniBH

Três anos passaram-se e, na visão da estudante de jornalismo Geisiane Martins do UniBH campus Estoril, de 18 anos, pouca coisa mudou. A aluna da instituição afirma desconhecer qualquer grupo na faculdade que apoie a comunidade LGBT.

O tema, porém, passou a ser discutido em sala de aula. “O máximo que pude observar são alguns mínimos grupos de trabalho que abordam algo relacionado ao tema, mas de forma indireta ou menos objetiva, nada relacionado diretamente com a instituição”, comenta Geisiane.

A professora de jornalismo e de publicidade Adélia Fernandes do UniBH, ativista defensora dos Direitos Humanos, ressalta, porém, que as questões de gênero, especialmente as relacionadas às comunidades LGBT, são abordadas em disciplinas específicas, como Antropologia, Comunicação e Cidadania, Interfaces do Jornalismo por meio de textos e debates.

“É inconcebível que em um curso de comunicação as questões de gênero não sejam tratadas em todas as disciplinas”, pontua.

No entanto, na faculdade não há uma organização de apoio exclusivo à causa LGBT. Adélia afirma que o Núcleo de Orientação Psicopedagógico (NOP), que dá apoio às minorias da faculdade e pessoas com algum tipo de deficiência, também tem um viés de apoio à comunidade LGBT.

Apesar de o NOP estar aberto, esse viés não é de todo conhecido pela comunidade LGBT. O estudante de jornalismo do campus Estoril Bruno Costa, de 24 anos, afirma desconhecer qualquer ação da faculdade em prol dos homossexuais.

“Não me sinto representado”, comenta o estudante, que relata já ter se sentido vítima de desrespeito de abusos, mas que não denunciou pois leva tudo na brincadeira. “Sou da paz!”, reforça.

A professora Adélia pontua que toda comunidade que sofre algum tipo de preconceito e que se sinta pouco representada precisa se organizar.

“Essa organização não é de fora. Os próprios homossexuais e a comunidade LGBT precisam se reunir”, diz, ao completar que até hoje nunca percebeu no UniBH alguma movimentação que discuta essas questões.

No campus Lourdes, unidade do UniBH em que Gisele Larissa Silva (20) estuda, debates sobre diversidade sexual também não são frequentes. A estudante de Relações Internacionais, que afirma nunca ter sofrido preconceito por parte dos colegas ou professores por ser lésbica, concorda que a faculdade deve ser um espaço aberto a esse tipo de discussão.

“O ambiente acadêmico é um espaço livre de preconceitos”, enfatiza.

faculdade, a propósito, é o espaço para melhor aprendizado não apenas acadêmico, como social. A psicóloga Priscilla Messiane acredita que as pessoas vão para o ambiente acadêmico ainda mergulhados em preconceitos, e que não há lugar melhor para repensá-los do que nas universidades.

“Na faculdade, as pessoas começam a tomar conhecimento e a ter seus próprios argumentos não baseados em contruções sociais. Se ela estiver disposta, ali é o melhor lugar para quebrar essas barreiras”, ressalta.

Falta representatividade, sobra solidariedade em outras faculdades

Raphael Rocha, da PUC Minas, Júlia Pimenta, da Fumec, e Bruno Silva Rodrigues, do Pitágoras, afirmam desconhecer qualquer movimento pró LGBT em todas essas instituições. Entre eles, porém, a opinião é unânime: o assunto é discutido livremente nas salas de aula, entre os professores e alunos.

Raphael, por exemplo, que se formou em jornalismo no ano passado, se lembra de ações que buscavam a representatividade da população LGBT da PUC São Gabriel.

“Apesar de não haver um coletivo responsável por garantir a representatividade LGBT no campus, tive professores que desempenhavam essa função muito bem através de performances artísticas e trabalhos em classe que envolvesse o universo LGBT”, relata.

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Professores discutiam o tema – Raphael Rocha, ex estudante da PUC

Para Júlia Pimentel, de 25 anos, formada em design, sua área de estudo contribuiu bastante para que não sofresse nenhum tipo de preconceito enquanto estudou na Fumec. “Não tinha coletivo, não… Mas a maioria do povo de design era gay. Ou apoiava ou era bem de boa”, relembra, aos risos.

O estudante de Fisioterapia do Pitágoras Bruno Silva Rodrigues explica que sua relação com a comunidade acadêmica melhorou quando ele se assumiu gay. Apesar de não saber de nenhum movimento universitário a favor dos direitos humanos, ele afirma que a faculdade foi “o local em que mais se sentiu acolhido”.

Luta pela visibilidade LGBT

Se em outras universidades a luta pela visibilidade LGBT ainda caminha a passos lentos, na UFMG e na Una ela já tem formas concretas.

O projeto de extensão “Una-se Contra a LGBTfobia”, por exemplo, do Centro Universitário Una, foi criado em 2011 pelo professor de jornalismo e publicidade e propaganda Roberto Reis. O objetivo é incentivar uma cultura de respeito aos direitos humanos e à diversidade sexual no ambiente universitário com foco em uma formação cidadã dos futuros profissionais.

“Todo início de semestre, por exemplo, é ofertada a oficina ‘Direitos Humanos e diversidade sexual no ambiente universitário’ para os professores da instituição. As conversas são ótimas, e vejo que os profesores querem mesmo participar”, comenta Reis.Reis comenta que o grupo atua oferecendo oficinas de capacitação a professores, alunos e funcionários sobre a visibilidade LGBT; realizando mostras de filmes, simpósios, mesas redondas e palestras, além de promover o Mês da Diversidade Casa Una de Cultura.

O professor pontua ainda que uma importante ação realizada pelo projeto foi a aprovação do uso do nome social por alunos transexuais e transgênero.

O “Una-se Contra a LGBTfobia” ainda tem parcerias com outros atores sociais como o CellosMG, o Coletivo Gisbertas, o Programa Pólos de Cidadania e o Nuh, da UFMG. Este último, a propósito, é um núcleo que desde 2004 desenvolve ações de ensino, pesquisa e extensão que permeiem a temáticas das relações de gênero e orientação sexual.

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Reis coordena o projeto Una-se Contra a LGBTfobia

O  Nuh (Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT) é coordenado pelo pelo professor Marco Aurélio Máximo Prado, do departamento de Psicologia da UFMG e segue cinco grandes linhas e atua na área da pesquisa científica e do ensino, além de fomentar projetos, ciclos de debate e mostras.

O mestrando da UFMG Cláudio Magno, de 24 anos, que integra o Nuh, acredita que o ambiente acadêmico tem se tornado cada vez mais um ambiente plural, seja nas instituições públicas ou privadas, mas faz ressalvas.

“É fundamental a luta pela construção de uma educação que contemple o respeito às diferenças, que tem se dado através da articulação política desses sujeitos na reivindicação de seus direitos”, acrescenta.“Algumas concepções excludentes oriundas de preconceitos ainda muito arraigados em nossa cultura e sociedade também se manifestam no ambiente acadêmico, dificultando a inclusão plena de sujeitos socialmente marginalizados como a população LGBT, que ainda enfrenta muitos desafios para conseguir adentrar as universidades e, sobretudo, para permanecerem nelas”, comenta, ao ressaltar a importância de núcleos como o Nuh.

 

Oportunidade para travestis e transexuais

Para transexuais e travestis que ainda não ingressaram na carreira acadêmica e por causa de preconceitos evitam fazer o curso de pré-vestibular, a advogada Adriana Valle, integrante da Comissão de Diversidade Sexual da OAB-MG, criou em 2015 o TransEnem BH.

O curso que é gratuito prepara essas pessoas para o Enem e outros vestibulares e foi criado com o intuito de combater a exclusão dessa população LGBT.

Segundo pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), o Brasil é o país que mais matam transexuais e travestis no mundo sendo registradas 604 mortes entre janeiro de 2008 e março de 2014.

 

Apesar das aulas serem lecionadas por professores voluntários e contar com a contribuição de administradores, o projeto busca doações e parecerias para poder ajudar alguns alunos financeiramente e para arcar com alguns gastos.

Para isso, foi criado uma campanha crowdfunding, que permanecerá ativa até o dia 31 de outubro deste ano, para que pessoas de todo o mundo possa contribuir com o projeto.

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