A fé é um adesivo de nicotina

Quando achou que as luzes do Todo Poderoso haviam se apagado, com o suicídio da esposa em maio de 2012, Alair Júlio de Souza resolveu apelar mais uma vez para o Divino. “Meu Senhor, me dá a mão aqui, que a coisa está feia”, reclamou auxílio. O sono veio aquela noite com pontadas de tristeza e resignação.

No dia seguinte ao pedido, um convite inesperado da empresa: entrar para o grupo contra o tabagismo. Desconfiado como bom mineiro, mesmo com a fé de dar muita inveja em qualquer carola, pensou: “Se falar sobre os malefícios do cigarro, não vou! Isso eu  já estou cansado de saber”.

Mas já que a ajuda veio dos céus, o Altíssimo não decepcionaria Alair com mimimi. Mal pôde acreditar que, na dita cuja reunião, sequer a palavra cigarro foi mencionada. Ao contrário disso, o que o fresador mecânico encontrou foram braços e mãos encerradas num caloroso abraço. “Nunca fui recebido assim”, estranhou, esperançoso.

cigarrete

Depois dum check-up médico, foram parar em suas mãos adesivos de nicotina, que ele só resolveu utilizar depois de voltar da roça. “Lá dá muito mais vontade de fumar”, explicou-se.

Na segunda de manhã, então, o grande dia: colar em seu corpo um quadrado recheado da substância que lhe era mais agradável. A sensação não lhe causou estranheza, afinal, quem nunca colou em si um band-aid? Esquisito mesmo foi trabalhar o dia todo sem sentir vontade de fumar.

Na terça também nem falta da sensação de algo queimando-lhe entre os dedos. Ok, na quarta veio aquela vontadezinha longe de acender o tabaco, que voltou a lhe acometer na sexta. No sábado, a coisa foi pior porque, na roça, procurou pelo tal maldito cigarro. Não encontrando, porém, voltou a capinar.

ciga

Passaram-se quatro anos desde que a caixa de Malboro deixou de existir no quotidiano de Alair. A fumaça rotineira deu lugar a uma respiração sem falhas. Passou pelo infarto que lhe acometeu como um adolescente de 12 anos e pulmões limpos.

“Nossa, Alair! Então, esses adesivos te ajudaram muito, hein!?”, digo, impressionada. “Tá doida?”, me repreende, “Quem tirou isso de mim foi Deus”.

O adesivo de nicotina que começou a usar naquele 5 de agosto foi mero alento. Afinal, para um homem católico de fé, largar de uma vez por todas o cigarro pendurado na boca há 48 anos só pode ser milagre.

cigasssss

 

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