Educomunicação e autoestima

A escola, para Paulo Freire, nunca esteve restrita ao espaço físico que ocupa uma sala de aula, com quadro negro, cadeiras enfileiradas e um processo de comunicação unidirecional. O educador enxergava o aluno como um sujeito capaz de interferir em todos os processos em que se encontra. Segundo Freire, “não há, realmente, pensamento isolado, na medida em que não há homem isolado”.

Dessa forma, o pedagogo pernambucano, conhecido mundialmente pela notabilidade de seus pensamentos, dá as primeiras formas ao campo de estudo que atende pelo nome de educomunicação. A metodologia pedagógica, que aos poucos tem se consolidado nas pesquisas brasileiras, utiliza de recursos midiáticos para potencializar o ensino.

O conceito, entretanto, não se restringe a união entre aprendizagem e meios de comunicação. Ismar Soares, estudioso brasileiro mais notável do assunto, chama a atenção para o principal objetivo da educomunicação: o de estimular a auto-estima e a capacidade de expressão das pessoas como indivíduo e em grupo.

Foi focado nesse propósito que o projeto de extensão House Organ Cidadão, do curso de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), dedicou suas atividades durante todo o ano de 2015. Voluntários e bolsistas do projeto trabalharam junto de alunos da 8ª e 9ª série da Escola Municipal Belo Horizonte (EMBH) na construção o desenvolvimento de todas as etapas do processo de produção de um jornal, como reunião de pauta, coleta de informações e entrevistas, seleção de material, redação e edição.

A auto-estima, como Ismar recomenda, foi uma das coisas mais trabalhadas durante as atividades. A Pedreira Prado Lopes, aglomerado da região da Lagoinha, é onde está localizada a EMBH e em que a maioria dos alunos mora. Muitos deles, ao observarem o contorno das casas e as elevações do morro, mentiam quanto ao lugar que moravam, a maioria por vergonha. Uma das explicações para a falta de identificação com o local era de que, quando notícias sobre o aglomerado saíam na grande mídia, a maioria era sobre crimes violentos e tráfico de drogas.

Para a transformação desse olhar sobre o aglomerado, então, os alunos foram estimulados a pensar em todos os acontecimentos interessantes e positivas que ali ocorriam. A partir daí, surgiram histórias como a do antigo Torneirão, mina da Copasa onde os moradores faziam captação de água antes da canalização completa do bairro. A partir do resgate dessas e de outras histórias, como um campeonato de futebol em que os meninos da EMBH derrotaram vários de escolas particulares, os alunos reinauguraram o antigo jornal da escola, o “Em Contato BH”, e produziram conteúdo, como matérias e fotos, para a publicação impressa.

Com o passar do projeto, percebeu-se uma melhora no diálogo, e, ao fim das atividades, o aprendizado tornou-se mais dinâmico e produtivo. Isso não quer dizer, porém, que terminou também o trabalho. Os alunos foram estimulados a dar continuidade à produção de notícias regionais, mas, desta vez, com as próprias pernas – e mãos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s