Quando tudo estiver uma merda, vá lavar a louça

Depois de um longo processo para passar um mês estudando na “Folha de S. Paulo”, chego arrasada em casa porque não passei na última etapa. Para completar, ainda tive que comer comida requentada, e na pia da cozinha ainda havia uma pilha de vasilhas enorme esperando que eu a lavasse. Eu só queria meu quarto.

Na verdade, não queria porra nenhuma! Entrei lá, botei Amy Winehouse para ouvir, tirei porque estava horrível. Fui mexer no celular, só tinha porcaria, joguei para o canto. Fumei um cigarro, engasguei com a fumaça. Botei um incenso pra queimar, quase morri sufocada com o cheiro (a janela estava fechada, não queria a luz do Sol).

Só me restava chorar na cama porque é macia. Poxa, depois de tanto sacrifício, pegar ônibus por oito horas ida e volta, matar aula, faltar ao trabalho, enfrentar o frio de São Paulo e, o pior: se encher de esperança. É extremamente frustrante fazer planos depois vê-los desmoronar em segundos. É como se uma mão invisível arrancasse de você aquilo que nunca foi seu. Na minha cabeça, Cortella parecia entoar o hino, com uma coroa de louros, vestido de túnica branca e corneta nas mãos: “Felicidade é igual realidade menos expectativa”.

Stack of dirty dishes
Crédito: banco de imagens Getty

Não estava me suportando! Era essa a verdade. Pensei em dormir, mas imaginei que acordar depois dessa vibe seria pior. Cerrei os olhos e lembrei das louças lá na pilha. Automaticamente, levantei-me e me pus a lavá-las. Não pensei em nada, só queria terminar a pilha.

De lá, fui direto pro meu quarto – que estava uma zona – e comecei a arrumá-lo. Desfiz minha mala, recolhi o lixo e pus meus elefantes em ordem. Depois, tomei banho e vesti uma roupa bonita.

Quando dei por mim, já estava bem melhor do que quando cheguei em casa. Claro que não tinha superado completamente a frustração, mas percebi que no momento que parei de fazer a vítima deste “oh, mundo cruel! oh, mundo injusto!” tudo ficou menos pesado. Enxerguei que o mesmo planeta terrível que me tira a alegria também me dá outras mil possibilidades de tê-las de volta.

Às vezes, é preciso mesmo só de vasilhas sujas no meio do caminho. Ou na pia da cozinha.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s