O insuportável fardo da paixão

Resignação. Palavra que permeava toda a vida de João Otávio. Ao longo de seus 43 anos de existência sobre a terra, ele conformava-se com qualquer tipo de situação. Contentava-se com o emprego de escrivão, no qual se misturavam papéis, ácaros e traças; era apático ao casamento engessado com Rosemaria, e até a perda da mãe para o álcool não foi um acontecimento que lhe causou comoção.

Era dela, aliás, que aprendera tal ensinamento. “Seja sóbrio”, dizia-lhe a progenitora nos raros momentos de lucidez, quando não estava entregue ao conhaque.

Nada era nem bom nem mau. Tudo estava nem triste nem feliz. Qualquer coisa nem lhe agradava nem lhe contrariava.

Até aquela terça-feira ensolarada. A culpa era do firmamento sem nuvens. Do canto indecente dos pássaros. Da relva petulantemente verde. Aquele conjunto fez-lhe pensar. Foi como se a luz brilhante do sol finalmente lhe houvesse aberto os olhos para o mundo pela primeira vez. Em sua cabeça, o “E se?” espetou-lhe como o tridente do diabo.

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Viver é resistir (e não desistir)

Não são poucos os relatos de pessoas que, com força de vontade e determinação, conseguiram superar situações aparentemente sem saída. Ou então histórias comoventes de animais que, depois de apanhar muito de seus donos, se recuperaram, e hoje têm a aparência tão boa, que é quase irreconhecível a de quando foram encontrados.

Este relato de sobrevivência, porém, não diz respeito nem ao primeiro nem ao segundo caso. Mas, sim, sobre um ser que vive silenciosamente, enfrentando, além das intempéries, a ação mal-intencionada do ser humano: uma paineira plantada em frente à minha casa.

Na verdade, são duas. É que quando trouxe a muda da árvore plantada em um pouco de terra, não imaginava que ali havia duas plantas, ao invés de uma. Bem parecido quando uma mulher descobre que está grávida de dois, e não de um filho, como pensava inicialmente.

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