Viver é resistir (e não desistir)

Não são poucos os relatos de pessoas que, com força de vontade e determinação, conseguiram superar situações aparentemente sem saída. Ou então histórias comoventes de animais que, depois de apanhar muito de seus donos, se recuperaram, e hoje têm a aparência tão boa, que é quase irreconhecível a de quando foram encontrados.

Este relato de sobrevivência, porém, não diz respeito nem ao primeiro nem ao segundo caso. Mas, sim, sobre um ser que vive silenciosamente, enfrentando, além das intempéries, a ação mal-intencionada do ser humano: uma paineira plantada em frente à minha casa.

Na verdade, são duas. É que quando trouxe a muda da árvore plantada em um pouco de terra, não imaginava que ali havia duas plantas, ao invés de uma. Bem parecido quando uma mulher descobre que está grávida de dois, e não de um filho, como pensava inicialmente.

paineira_1
As árvores crescem abraçadinhas uma na outra ❤

Exageros à parte, a luta pela sobrevivência da árvore começou ainda nesta época, em meados de 2010, quando a planta de grande porte (em condições ideias de pressão e temperatura ela atinge até 30 metros) ficou mais de um ano acomodada em suporte de lona com um pouco de terra.

Depois desse tempo, finalmente dei a devida atenção à árvore-de-lã, como também é chamada, e recrutei meu pai para plantá-la. Com poucos meses, ela atingiu uma altura considerável, mas alguém achava que ela não deveria passar dali e quebrou-lhe todos os seus galhos. Esta foi a sua segunda provação. E aconteceu no mesmo dia em que a TV em que trabalhava fechou as portas, e fui despedida. Chorei duas vezes.

Drama trabalhístico à parte, pedi ajuda do meu pai novamente, e ele construiu uma cerca maior e mais bem reforçada. Então, a barriguda – outro apelidinho dela – voltou a crescer vigorosa (uso sempre o singular, porque as árvores estão tão bem entrelaçadas, que só um olhar atento consegue perceber que são duas paineiras que existem ali).

espinhos
Veja os espinhos no tronco e nos galhos; a árvore de trás quase não tem =(

 

Tudo ia bem até outro serumaninho – no caso, um senhor octogenário – também achar que a árvore não precisaria mais de ocupar espaço como ser vivo nesta Terra e lhe arrancar todos os espinhos (a paineira aos montes!). Mais uma vez, a planta conseguiu se virar sem seus protetores pontudos e seguiu crescendo, estrondosa. Uma das irmãs, porém, parou de produzir espinhos em sua base.

Tudo ia bem, até que outro serumaninho – este não sei dizer quem foi – acimentar ao redor das raízes. ¿Pra quê isso, senhor? A prática só serve para estrangular as raízes e prejudicar o crescimento da árvore. A boa menina, porém, arrebentou o cimento e continuou crescendo, estrondosa.

cimento
Cimento nas raízes estrangula a árvore, e as raízes o arrebentem assim mesmo

Tudo ia bem, até que vários serumaninhos começaram a reclamar da paina – espécie de algodão que a árvore produz em na época da reprodução e que voa levando as sementes – que começou a invadir as casas, sujar tudo, entrar pelos narizes delicados e fazer espirrar.

Tudo continuou bem, porque fiz ouvido de mercador. Como aprendi com o Pequeno Príncipe, é preciso suportar uma ou duas larvas se quiser ver as borboletas. Neste caso, suportar 15 dias de paina se quiser sombra e uma floração maravilhosa.

Tudo ia bem, até o domingo retrasado. Acordei com a mensagem que minha prima havia me mandado, mostrando a foto de dois furos na árvore, com os dizeres: “Acho que estão querendo judiar da sua árvore. Fizeram exatamente a mesma coisa com a outra árvore plantada em frente à farmácia, para colocar veneno.”

furos
Furos e óleo queimado: veneno pra qualquer tipo de árvore

Chamei meu pai pra ir ver comigo, e ele disse que haviam jogado óleo queimado na planta, pra matá-la. Perguntei o que poderíamos fazer, mas, desta vez, meu pai disse que não saberia o que fazer.

Minha primeira reação, então, foi correr pra internet e procurar soluções. Liguei pro Disque Denúncia e Polícia Ambiental, mas ambos me informaram que eu teria que apresentar o nome de um suspeito. Desconfio de vários, mas não posso entregar um nome sem provas.

Sem ter muito o que fazer, imprimi umas plaquinhas de conscientização e preguei ao redor da árvore. Também lavei a região da árvore com água e sabão de coco – vi que agentes da prefeitura de Santos fizeram isso pra tentar amenizar o veneno.

Alguém gostou da ideia e colou a plaquinha: “Parabéns pela atitude”. Ao menos tem gente comigo nesta.

Tenho monitorado a árvore e vi que, mais uma vez, jogaram óleo queimado. Mais uma vez, lavei com água e sabão de coco. Se quer briga, vai ter briga!

Estava pensando em como terminar este texto, mas, depois de escrever este relato, só consigo sentir tristeza. Não sou nenhuma abraçadora de árvores, mas pensar um mundo onde há gente disposta a matar um ser vivo por um motivo fútil me deixa desacreditada. Sigo, porém, com o ensinamento silencioso da paineira: para viver, é preciso resistir (e nunca desistir).

 

 

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