O insuportável fardo da paixão

Resignação. Palavra que permeava toda a vida de João Otávio. Ao longo de seus 43 anos de existência sobre a terra, ele conformava-se com qualquer tipo de situação. Contentava-se com o emprego de escrivão, no qual se misturavam papéis, ácaros e traças; era apático ao casamento engessado com Rosemaria, e até a perda da mãe para o álcool não foi um acontecimento que lhe causou comoção.

Era dela, aliás, que aprendera tal ensinamento. “Seja sóbrio”, dizia-lhe a progenitora nos raros momentos de lucidez, quando não estava entregue ao conhaque.

Nada era nem bom nem mau. Tudo estava nem triste nem feliz. Qualquer coisa nem lhe agradava nem lhe contrariava.

Até aquela terça-feira ensolarada. A culpa era do firmamento sem nuvens. Do canto indecente dos pássaros. Da relva petulantemente verde. Aquele conjunto fez-lhe pensar. Foi como se a luz brilhante do sol finalmente lhe houvesse aberto os olhos para o mundo pela primeira vez. Em sua cabeça, o “E se?” espetou-lhe como o tridente do diabo.

magritee

E se minha vida tivesse sido diferente? E se eu tomasse rumos distintos? E se eu fosse rico? Não era o dinheiro, afinal, a solução para tudo?

Aprumou-se. Livrou-se do ostracismo como se sai de um banho quente para uma rajada de ar frio. Barbeou-se. Esperou ansiosamente pela noite que caía mansa. Perfumou-se. Partiu em direção ao cassino determinado a sentir a emoção dos jogadores de apostar tudo na incerteza.

Jogou. Jogou-se. Entregou seus trocados às jogatinas. Entregou-se ao prazer sem-fim de um cassino. Sentiu raiva ao perder um bocado de dinheiro em uma partida; enfureceu-se quando perdeu mais dois bocados; riu de si mesmo ao quebrar um copo de conhaque. Animou-se ao ver seus tostões restituídos. Exictou-se quando conseguiu notas altas. Ficou atônito ao ganhar 1 milhão de dólares.

Desconcertado, disparou em direção à casa. Beijou a mulher – não havia mais gesso. Olhou-se no espelho – a cor acinzentada havia desaparecido. Beliscou-se: sentiu dor, experimentou a alegria de sentir dor e percebeu que doía-lhe a alegria provinda da dor.

Paixão. Palavra que nunca ocorrera na vida de João Otávio. Ao longo de seus 43 anos de existência sobre a terra, a intensidade de qualquer sentimento jamais lhe coube. Não suportou. Suicidou-se naquela mesma noite com um tiro na cabeça.

*Texto originalmente escrito para prova do Cefart, com adaptações, em teste aplicado no dia 12 de novembro de 2016. 

* Imagens de quadros de René Magritte

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