Luz negra de uma lembrança cruel

Em dias assim, em que a gente se sente como quem partiu ou morreu, acendo meu cigarro, boto Coltrane num volume que só eu consigo escutar e rememoro as minhas tristezas. Sim, porque o ser humano, qualquer que seja, tem esse gosto pelo mórbido, pelo sombrio, pela morte. Ora, essa, todos têm! Eu simplesmente assumo.

A primeira memória que vem à minha cabeça é sempre a de Bentinho. Já tentei pensar outras desventuras, mas o personagem do Machado de Assis insiste em ser o primeiro a ocupar minhas lembranças melancólicas. E o diabo vem todas as vezes com a mesma assertiva: “Sempre terei o sabor da dúvida, mas você provou o amargor da certeza!”

Tento rebater, dizendo que uma verdade dolorida é melhor do que mil mentiras agradáveis, mas ele sabe que minha histeria é justamente porque nunca terei a mesma sorte de nunca descobrir se Capitu traiu ou não traiu.

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Capitu… Dona de olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Seria pretensão minha compará-los aos de Beatrice, redondos como duas jabuticabas maduras, mas sem brilho. Tão escuros que seria impossível decifrá-los. Se ao menos tivesse como alguém como José Dias para me alertar assim como fez com Bentinho…

Mas nesse caso não teria tristeza para rememorar! Nem passado cruel algum para me agarrar! Melhor, assim. Poderei lembrar para sempre daquele fatídico dia.

Há sete anos – para ser mais exato seis anos, dez meses e 23 dias – vi o impossível, assisti ao surreal, presenciei o inimaginável. Beatrice cheias de sorrisos, de malícias, de jogos lascivos, todos dirigidos a alguém que não era eu.

Analisando por este ponto de vista – talvez vocês consigam imaginar de quantas formas já rememorei este fato -, ela nunca demonstrou algum gesto ou movimento voluptuosos. Recatada e de família ultra-conservadora, ela sempre repelia minhas investidas. E, quando, vez por outra, caíamos em pecado, ela erguia os olhos marejados ao Altíssimo e suplicava o perdão por nós dois.

Em dois anos, cinco meses e 16 dias ao meu lado, Beatrice se conservou na mais pura virtude da castidade.

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Isso, porém, não se fez importante naquele dia. Considerem que esses detalhes, responsáveis pelo meu martírio de hoje, eram insignificantes quando vi minha namorada nos braços de outro. Se nem as seis pistas da avenida mais movimentada de Belo Horizonte, com seus automóveis em alta velocidade, me fizeram pensar, imagine gestos luxuriosos.

Mas sentado aqui nesta poltrona, já na sexta música de Coltrane, eles aparecem claros como um dia de sol sem nuvens. Nítidos. Exatos. Ferozes. Capazes de me causarem dor de infarto. Uma tragada, e eles tornam-se pouco mais leves. Pior. Gostaria de senti-los mais pesados.

Se eu pudesse descrever a sensação que Beatrice experimentou ao beijar o outro, diria que ela sentiu a mulher mais pecaminosa do mundo, mas, daquela vez, sem culpa alguma. Pelo contrário! Ela riria dos dogmas que foram-lhe despejados a vida toda com dentes de vampira faminta.

Nem mesmo com a minha chegada ela foi capaz de perder aquela emoção. O abalo dissipou-se no dia seguinte quando tivemos uma conversa sobre o nosso término. Enquanto eu sustentava pesadas olheiras de uma noite não dormida, ela estava leve, apesar do rosto mostrar contrariedade: tinha mordido o fruto proibido.

Ah, Capitu, ah, Beatrice. Apesar de Bentinho estar sempre um ponto à frente de mim pela vantagem da dúvida, ele há de concordar comigo que o desalento da traição é sempre o mais atroz, e, por isso, o que mais nos atrai.

*Imagens de John William Coltrane – saxofonista e compositor de jazz norte-americano, escolhidas para ilustrar o estado de espírito do personagem, mas que não têm qualquer relação com a história.

 

 

 

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