Para a liberdade: São Paulo!

A garoa cai fina sobre o seu rabo de cavalo e forma um aglomerado de gotículas sobre o cabelo encaracolado que, de longe, provoca a sensação de se estar vendo fios brancos. Mas ao chegar de perto, logo percebe-se que o emaranhado é pretíssimo – cor conseguida, é claro, pela tintura, já que o correr incessante dos anos insiste em embranquecer os fios.

No topo da cabeça, porém, nenhuma confusão visual entre cabelo e chuva: a careca branca recebe as gotas de água pacientemente, e estas logo escorrem para o tufo de cabelos preso por um elástico ou então para a argolinha de ouro dependurada na orelha esquerda que há tempos perdeu o brilho pelo uso ininterrupto.

É essa a visão que tem de si mesmo ao passar por um imponente prédio espelhado da Paulista. É domingo de manhã, e ele acaba de sair da kitnet apertadíssima para esticar as pernas, respirar o ar da maior metrópole do Brasil e repetir o mantra que não lhe saiu da cabeça nos últimos 50 anos: “Ah, minha São Paulo, meu dinheiro, minhas mulheres”.

A frase é o gatilho para se lembrar de como foi parar ali.

Vale do Anhangabaú

O tempo estava bem parecido com o desta manhã. A diferença estava no ar, que era fresco e com cheiro de mato. Relembrando agora deste momento, percebe que as condições climáticas da roça nunca foram um motivo para voltar à sua cidade. Na verdade, nada se mostrou verdadeiramente forte para pegar o ônibus de volta à Minas.

Talvez apenas a falta insuportável da mãe, que chorava quietinha no canto da cozinha naquela manhã cinzenta. Sempre fora assim. Aceitava tudo com um choro contido. O pai, pelo contrário, esbravejava, cuspia, com a face em brasas:

– Vai! Vá, mas vá com a certeza de que nunca mais será bem vindo de volta! Nem em cem anos aceitaria um filho que trocou sua família por vaidade! Se é isso que você quer mesmo, suma daqui e não apareça nem no meu velório, desgraçado!

Vale do Anhangabaú by Night

E, assim, com a despedida marcada pelo amor e de desejos de sorte pelo de pai, partiu em direção a São Paulo. O discurso do progenitor não lhe trouxe qualquer remorso, apenas os olhos marejados da mãe ainda provocam nele pontadas de tristeza.

“Ah, minha São Paulo, meu dinheiro, minhas mulheres”, dizia ele, com espírito de um jovem de 20 anos enquanto olhava a paisagem correr na estrada.

Para se livrar de vez da marca do pai  e de toda vida que o ligava ao passado no interior de Minas Gerais mudou de nome. Em cartório, ainda em Belo Horizonte, com firma registrada e reconhecida, apagou o Arcanjo, herança do pai. Agora só Eduardo Marciano. A mudança não lhe resultaria em problema algum, já que em São Paulo, onde ninguém o conhecia, se apresentaria como Fernandes. “Senhor Eduardo, seu carro chegou”, “Senhor Eduardo, assine aqui, por favor”, “Oh, Eduardo, você me deixa em polvorosa quando fala essas coisas”. Já podia imaginar.

sampa

Instalou-se em um pequeno cômodo no centro da metrópole – “É só até conseguir algo melhor” – e deu-se a viver a vida que sempre quis: em liberdade! Apenas não escolheu o bairro de mesmo nome para morar, pois sempre tivera a sensação de que os japoneses estão sempre presos ao trabalho.

Todos os dias, ia à Paulista, e não era difícil descolar papo com uma garota, visto seu charme natural. Deixou o cabelo crescer, colocou um brinco na orelha, e podia andar livremente pelas ruas da cidade grande sem olhares de reprovação. Nunca mais sentiu a dor de um chicote na pele só pelo fato de ter juntado dinheiro para comprar sapatos, ao invés dos chinelos mal tradados que lhe eram destinados para lavrar a roça. Podia escolher entre tomar uma cerveja ou ir ao cinema no sábado à noite, já que não estava mais condenado às leituras obrigatórias da Bíblia que, de tanto ouvi-las, concluiu que seu seio familiar fazia exatamente o contrário do que a palavra de Deus orientava.

Nunca conseguiu um emprego com honorários altos nem empreendeu a ponto de faturar muito dinheiro. Sempre fazia um bico aqui, outro ali. Tudo bem que seu desejo era levar uma vida de patrão, mas, como as escolhas têm um preço, não importava em pagá-lo com as migalhas de seu salário de fome.

sampa

Viveu e vive assim muito bem, obrigado. Para a família, ele é um egoísta, um louco, que se deu mal ao apostar todas as fichas numa vida sem futuro. Mas o que adiantaria seguir os conselhos do pai e ter um casamento arranjado e uma vida toda amargurada e pessimista, como é o caso da irmã?!

Por isso, que, assim como há 50 anos, e ainda hoje, o que vale mesmo é a opinião dele: está exatamente onde gostaria de estar, livre como sempre quis. Se para os outros, o Eduardo sempre foi a ovelha negra da família, ele acredita que sua personalidade combina mais com a de um pássaro que resolveu bater as asas. E que hoje acumula umas gotículas de água nas penas, melhor, nos cabelos.

* Texto em homenagem ao meu tio, que comecei a enxergá-lo de outra forma depois de questionar os padrões familiares.

ATUALIZAÇÃO: depois de ouvir poucas e boas da minha família sobre este texto tive que alterar o nome do meu tio (coloquei o do personagem de “Encontro Marcado”, de Fernando Sabino, que tanto amo)

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