Invisível

Sol rachando no meu rosto, e Racionais estourando nos meus ouvidos. Aumento o volume para tentar ouvir menos o barulho da hipocrisia: um som que mistura gritos histéricos de patricinhas nos seus Iphones com a conversa de dois homens – terno de linho, perfume importado, relógio de ouro – sobre a situação econômica do país.

“Precisei vender duas, das minhas cinco fazendas no interior de São Paulo. E tive que cortar alguns gastos pessoais. Jatinho?! Agora, só nos fins de semana”.

Ainda bem que, nesses últimos anos, aprendi bem o que é auto-controle. Meus cinco anos praticando meditação serviram-me para muita coisa, porque minhas vontades neste momento eram:

– encurralar um daqueles velhos com o caco de vidro e mandar que me passassem a porra da chave do conversível estacionado logo à frente;

– ou surtar aqui mesmo, gritar, mandar tomar no cu, socar a parede de concreto até meus ossos encontrarem com o cimento.

nadaouca

Fiquei com a terceira opção que não estava na lista de desejos. Respirei profundamente, enquanto regulava o volume de Preto Zica para o máximo que meu celular permitia.

Poderia ouvir música até perder meus tímpanos, que ninguém olharia pra mim. Ou mesmo sangrar uns cinco dias sem que alguém desse falta de um cara como eu.

Quando o mendigo não incomoda ninguém, seja pedindo dinheiro ou cagando no meio da rua, ele simplesmente fica invisível. Não há olhar que seja dirigido prum andarilho, nem mesmo de desprezo. Portanto, nenhum dos cidadãos de bem se questionaria porque que o maldito do mendigo estava fazendo uso de um smartphone.

E isso dói pra caralho!

Achava que, quando eu começasse a mexer no celular, ouviria ao menos um sussurro entre as pessoas de que era “um absurdo um cara que não tem onde cair morto andando por aí com telefone na mão e, ainda por cima, moderno”. Mas nada. Nem uma palavra.

Passados sete meses, e eu não me acostumava a isso de forma alguma.

Já vivi tanta situação ruim, em momentos em que estive tão afundado na merda, que jurava que me afogaria nela. Mas, em um determinado momento, a areia movediça de estrume parava de me engolir, e eu ficava preso a ela, me adaptando ao cheiro e à consistência pegajosa.

Ser ignorado por todos, porém, era como inalar cheiro de merda e saber que nunca mais o ar puro entraria pelos meus pulmões novamente.

Não aguentava mais aquilo.

Precisava ser visto além dos momentos de pedir dinheiro ou de defecar.

Então, tive uma ideia.

nadaveja

Próximo ao cinema mais cult da cidade, onde filmes filmes desconstruídos (argh!) são assistidos por pessoas que usam óculos enormes, há uma banca de jornal ligada por uma árvore a um muro escuro que forma um arco sobre as cabeças de quem passa por ali. Lugar perfeito para ser evitado, principalmente quando está encostado nesta banca, em atitude suspeita, um elemento maltrapilho com o cabelo embolado. No caso, eu.

Em menos de cinto minutos que estou ali, surpresa! Finalmente sou notado.

Vem se aproximado uma moça apressada, na direção do cinema, óculos enormes, que inevitavelmente passaria pela banca. Mas, por um milésimo de segundo, ela levanta os olhos e me vê. Eu provoco uma atitude nela. No mesmo instante, ela muda a direção,  contorna a banca e segue, andando na rua para evitar se encontrar comigo.

Tenho que pensar rápido. Não posso deixar, depois de meses, que meu primeiro contato passe sem nenhuma apresentação.

“Não adiantaria nada você se desviar de mim se eu fosse um ladrão”, digo a tempo.

Percebo que ela para por segundos, mexe os dedos da mão direita, mas não se vira. Logo, ela aperta o passo para não perder o horário da película.

Sinto ar puro. Puxa, minhas narinas até estranharam! Saí um pouco da merda, com a certeza de que a garota ali sentiu um pouco do cheiro dela.

*  As imagens deste post foram produzidas pelo Lyel Augusto, Lito, em parceria com o Cem Mais Palavras. Confira:

explicacao

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