A mesma pessoa, mas diferente – um relato anônimo sobre depressão

Escrito por alguém que preferiu não se identificar

Enquanto lê o texto, clique aqui. para ouvir a canção “Começo, Meio e Fim”, do grupo Roupa Nova. 

Quando algo não vai bem com o nosso corpo, precisamos dedicar tempo para investir na busca pela causa e pelo tratamento daquilo que nos faz enfermar. Do contrário, sofreremos consequências que poderão significar uma derrocada.

Antes do colapso, vêm os sinais. Podem ser dores de cabeça constantes, um cansaço que não sentíamos antes, muito sono (ou a falta dele), enfim. De diversas formas, somos alertados de que uma intervenção é necessária para reajustar as coisas e restabelecer a ordem de tudo.

Com a nossa alma também funciona desse jeito. Aconteceu comigo. Uma série de desarranjos emocionais fizeram com que eu desenvolvesse depressão em grau moderado.

E, com ela, vieram o desânimo, a falta de perspectivas, a descrença em mim mesmo, em um futuro – qualquer que fosse. Pensamentos suicidas. Solidão. Solitude. Tudo desmoronou. Ruiu. E eu, de sonhador vigoroso, padeci a caco.

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Diante dos sintomas e do diagnóstico médico (eu nunca tinha ido a um consultório psiquiátrico e achava que jamais precisaria me submeter a isso), não havia nenhuma outra opção além de entregar-me à morte, ou de decidir, com a ajuda dos medicamentos e da psicoterapia, passar por cima desse gigante.

Mas eu abracei a vida. Fui em busca do que me recobraria o fôlego e me reconduziria. Reconduzir, conduzir de novo, conduzir, levar ao novo… E foi isso que decidi.

Logo percebi que seria inveitável abandonar o caminho que trilhara até então. Foram más escolhas – e também circunstâncias sobre as quais não tive qualquer poder de decisão – que me levaram àquele quadro de completa desilusão. A partir dos auxílios que já mencionei, parti para uma nova jornada.

Não arrumei as malas. Deixei tudo para trás. Para ir adiante e descobrir o novo de que tanto precisava era imprescindível romper com antigos conceitos, com a obsoleta visão que me transportara até o período vazio e débil no qual me encontrava.

Eu descobri que, para vencer a doença que esfacelou minha gana de viver, eu necessitava de bem mais que duas doses diárias de Citalopram e um encontro semanal com uma psicóloga clínica. Eu precisava me reinventar. Um começo (quase) do zero. E assim, segui ao encontro de mim mesmo.

Em meio a divagações e algumas concepções providas de certa lucidez, encontrei algumas respostas acerca do porque havia chegado a um poço tão fundo. A principal delas me dizia que a necessidade de cumprir um padrão de comportamento que atendesse a expectativas alheias tratou de me encaminhar ao fracasso emocional.

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Eu pude, enfim, notar que eu não vivia em coerência com aquilo que, lá no fundo, acreditava. Tudo o que eu fazia era para atender a esse padrão que outros me impuseram no intuito de, a partir da aprovação de outrem, suprir minhas carências e uma autoestima destruída pela sorte que me fora reservada.

Eu estava diante de mim. Pela primeira vez me percebia com a mais franca nitidez. Esse quadro tão triste me deu forças para recobrar o meu eu. Para prosseguir e ir em busca da construção da minha própria história.

Não me doeu ver-me tal como eu estava. Ao contrário, enchi-me de esperança. O desejo de transformação encheu minha alma. Eu me encontrei diante da possibilidade de me refazer. Vi que era possível converter aquele vale em uma planície regada e florida. Vida, enfim.

Esse é só o começo da história. De uma nova história. A mesma pessoa, mas diferente. Controverso? Pode ser, mas para mim significa um caminho seguro e repleto de possibilidades.

A vida tem sons que, pra gente ouvir, precisa aprender a começar de novo (…)”. Trecho da música Começo, Meio e Fim, do grupo Roupa Nova.