Invisível

Sol rachando no meu rosto, e Racionais estourando nos meus ouvidos. Aumento o volume para tentar ouvir menos o barulho da hipocrisia: um som que mistura gritos histéricos de patricinhas nos seus Iphones com a conversa de dois homens – terno de linho, perfume importado, relógio de ouro – sobre a situação econômica do país.

“Precisei vender duas, das minhas cinco fazendas no interior de São Paulo. E tive que cortar alguns gastos pessoais. Jatinho?! Agora, só nos fins de semana”.

Ainda bem que, nesses últimos anos, aprendi bem o que é auto-controle. Meus cinco anos praticando meditação serviram-me para muita coisa, porque minhas vontades neste momento eram:

– encurralar um daqueles velhos com o caco de vidro e mandar que me passassem a porra da chave do conversível estacionado logo à frente;

– ou surtar aqui mesmo, gritar, mandar tomar no cu, socar a parede de concreto até meus ossos encontrarem com o cimento.

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Hoje ainda é Carnaval!

Depois de dias de farra intensa no Carnaval, acordou naquela quinta-feira com uma ressaca absurda. A bebedeira, porém, não configurava o único motivo do mal estar do sujeito. Além da cerveja mais catuaba consumida desenfreadamente desde a sexta à noite, a sensação de não pintar o rosto nem de poder se banhar de purpurina e sair nas ruas vendo gente sorrindo até as orelhas lhe causou profunda dor.

Sair da cama naquelas condições nem pensar! Vai que, ao botar o pé pra fora de casa, ele encontrasse com alguém apressado falando ao celular? Ou então, ao adentrar a Estação Central, os rostos mal humorados contaminassem aquela alegria que cultivou tão deliciosamente durante esses dias? A melhor opção ainda seria acender um cigarro, enrolado por ele mesmo e esperar o dia passar.

Entre um trago e outro, sua opção era devanear. Seus pensamentos logo voltaram-se para aqueles dias de intensa e volúpia farra. Lembrou-se que na sexta-feira, ao pegar um bloco já em andamento – gostava mesmo era de chegar na concentração – encontrou-se com aquela que seria a musa do seu carnaval. Depois de ver que a moça curtia a folia genuinamente aproximou-se e, com poucas palavras, muitos sorrisos, logo se entregaram aos beijos ardentes. E se um perdia o fôlego por algum instante, o outro logo lhe recuperava com outro beijo fulminante. Agora, deitado, pensava por onde andava aquela que foi capaz de fazer-lhe perder os sentidos e a direção.

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Meus olhos não veem mais Bento Rodrigues

Eu tinha acabado de voltar do recreio, e a professora Amélia tinha pedido silêncio pelo menos umas três vezes. Claro que ninguém a ouvia porque a Fernandinha tinha trazido pra sala um pintinho da casa escondido dentro da mochila. O trato é que se ela conseguisse fazer com que nenhum professor ouvisse os piados, seria eleita a nova líder do MME (Meninas e Meninos Espiões). Mas quando os gritos da diretora invadiram o corredor, ninguém mais se importou com a maior atração de segundos atrás. Fiquei lembando do pintinho depois, pensando se ele morreu sufocado, ou se conseguiu escapar, se morreu soterrado.

“Estourou tudo! Tirem os meninos da sala! Saiam da escola agora! Pelo amor de Deus!”

Nunca tínhamos ouvido a diretora gritar, as professoras, sim, ela não. Então, isso só fez com que a gritaria na sala fosse maior ainda, e eu quase fui atropelado. Ainda consegui pegar minha mochila que estava no fundo da sala. O boneco do Ben 10 estava lá, e era o meu único presente da minha madrinha de Belo Horizonte. Minha mãe tinha deixado que eu o levasse pra escola com uma condição: “Deixe ele sempre na mochila, e se perder, apanha!”. Não tava a fim de levar chinelada nem perder meu presente novinho.

Nunca vi tanta lama.

Nunca.

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Terapia em grupo

Acordou da pior maneira possível. Com o som do despertador. Já tinha se decidido a trocar o jeito como se levantaria da cama, mas a possibilidade de sair da inércia já o deixava em frangalhos, por isso, era melhor continuar acordando de forma trágica todos os dias a ter que modificar seus hábitos. “Você só vai conseguir mudar o que tem feito depois que for para terapia”, dissera seu médico, pelo menos nas últimas dez vezes que o visitara. Permanecer em casa, com saída quase que exclusiva para o consultório, só fez com que a hipocondria tomasse proporções maiores.

Como das últimas vezes que se consultara, a recomendação do especialista não surtiu nenhum efeito. Sabia que aquela coisa de contar todos os sofrimentos, temores e angústias para outra pessoa era só manipulação da classe médica para que sentissem o ego mais massageado. Sabia disso como ninguém.

Mas, naquela noite, depois de mais uma maratona de filmes, assistir ao “Clube da Luta” pela vigésima terceira vez fez com que uma nova ideia surgisse à cabeça: a terapia em grupo. Sabia o quanto aquilo era ridículo, mas se expor para um monte de viciados, malucos e drogados, de repente, lhe pareceu algo excitante. Quem sabe, assim como Jack (na pele de Edward Norton), não descobriria ali uma fonte de prazer alucinante.

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A crônica

Certo dia o professor disse para a sua turma:

– Para a próxima aula vocês devem fazer uma crônica.

O burburinho foi geral. Fazer uma crônica? Mal sabiam fazer uma nota de rodapé, quanto mais umacrônica! Mas de nada adiantaram as reclamações. A tarefa estava dada e com direito a advertência do professor:

– Quem não fizer, perde cinco pontos!Leia mais »

Cem anos

– Já sei! – disse Veronika à sua amiga Martinha, ambas meio bêbadas, depois de uma noitada, escornadas no sofá de uma das casas delas.
– Sabe o quê, Veronika?
– Porque até hoje eu não encontrei o amor da minha vida.
– Ah, é? Por quê? Também preciso saber do meu!
– Porque eu e ele estamos separados por cem anos!
– Ahn?
– É! Ou ele já morreu há cem anos ou vai nascer daqui a cem!
– Tá doida mesmo! E bêbada!
– Não… É sério. Por mais que pareça loucura, acabei de ter esse insight!
– E como você tem certeza?
– Porque sei até o nome dele. Chama-se Bernardo.
– Isso é muito pouco.
– Também sei que vai ter olhos verdes, vai ser matemático e vai tocar gaita. Ou então, tenho certeza que já morreu alguém com exatamente essas características.
– Credo! Desde quando você tem tido essas ideias?
– Ah, às vezes fico pensando… Mas hoje veio como uma luz!
– Tá bom, Vê, vamos dormir. Boa noite – finalizou Martinha, já sem paciência.

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